Pois bem, caro leitor, parece que finalmente chegou a altura de voltarmos a falar de um género que, apesar de nunca ter desaparecido completamente, parece estar a viver uma nova época dourada: os jogos de luta.
De facto, se juntarmos um dos universos de banda desenhada mais conhecidos do mundo a uma das melhores equipas de desenvolvimento de jogos de luta da atualidade? Temos, como seria de esperar, uma combinação bastante interessante. Estou obviamente a falar da Arc System Works, conhecida por jogos como Guilty Gear, Double Dragon Revive, entre outros.
Assim nasceu Marvel Tōkon: Fighting Souls, um jogo de luta 4 vs 4 que tenta pegar na fórmula clássica dos tag fighters e dar-lhe uma boa dose daquele estilo anime exagerado que tão bem caracteriza os trabalhos da Arc System Works.
Mas será que esta combinação resulta? Vamos descobrir com esta análise!
Marvel Tōkon: Fighting Souls (Análise PS5)
Antes de mais nada, temos de falar um pouco sobre aquilo que torna Tōkon diferente de um jogo de luta tradicional. Ou seja, aqui não temos simplesmente dois lutadores a entrar numa arena e a trocar pancada até um deles cair para o lado. Cada jogador constrói uma equipa de quatro personagens, podendo alternar entre elas e utilizar os restantes membros como assistências durante o combate.
E isto é particularmente importante porque, apesar de inicialmente parecer um sistema relativamente simples, existe bastante mais profundidade escondida nesta mecânica.
Aliás, foi precisamente aqui que fiquei surpreendido.

À primeira vista, Tōkon parece um jogo extremamente acessível. Os controlos são simples, os combos podem ser executados sem grande dificuldade e praticamente qualquer pessoa consegue começar a fazer coisas visualmente impressionantes poucos minutos depois de pegar no comando.
Mas não é boa ideia confundir simplicidade com falta de profundidade!
É precisamente quando começamos a perceber como funcionam as assistências, a troca de personagens e a composição da nossa equipa que o jogo começa verdadeiramente a mostrar aquilo que tem para oferecer.
Gameplay
Aqui está, sem dúvida, o coração de Marvel Tōkon.

Como já referi, temos quatro personagens por equipa, mas isso não significa simplesmente escolher quatro dos nossos heróis favoritos e pronto.
Cada personagem pode desempenhar diferentes funções dependendo da posição que ocupa na formação, sendo que as suas assistências podem ser utilizadas para criar oportunidades de ataque, manter pressão sobre o adversário ou até controlar determinadas zonas da arena.
E é aqui que a coisa começa a ficar interessante.
Porque aquele personagem que inicialmente escolhemos simplesmente porque gostamos pode não ser necessariamente a melhor escolha para determinada posição. Por exemplo, uma assistência capaz de prender o adversário durante alguns segundos pode ser muito mais útil para determinados personagens do que uma assistência puramente ofensiva.
Ou seja, a composição da equipa acaba por ser praticamente tão importante como a habilidade individual com cada personagem. É um sistema que obriga o jogador a pensar um pouco mais na sua equipa e não simplesmente escolher os quatro heróis por quem tem mais nostalgia.
Marvel Tōkon consegue assim fazer algo que muitos fighting games nunca chegam a conseguir.
Refiro-me ao facto de os controlos serem extremamente acessíveis, mas o sistema que está por trás deles poder tornar-se bastante complexo.
Isto significa que alguém que nunca tenha jogado um fighting game pode pegar no comando e divertir-se imediatamente, enquanto um jogador mais experiente pode passar dezenas de horas a tentar perceber todas as possibilidades existentes.
É, na minha opinião, uma excelente forma de tentar aproximar novos jogadores do género sem sacrificar completamente a profundidade necessária para manter os veteranos interessados.
Contudo, existe um pequeno problema.
Há alturas em que simplesmente acontece demasiada coisa no ecrã.
Temos quatro personagens, assistências, ataques especiais, combos, efeitos visuais e lutadores a entrar e sair da arena constantemente.
E embora isto seja absolutamente espetacular de ver, também pode tornar alguns combates bastante difíceis de ler. Por vezes estamos a tentar perceber quem está efetivamente a atacar-nos enquanto aparecem personagens de todos os lados do ecrã.
É aquele clássico problema dos jogos de luta: aquilo que é fantástico para assistir pode ser bastante menos fantástico quando somos nós que estamos a levar no trombil.
Ainda assim, depois de algumas horas começamos a conseguir fazer sentido do caos.
E é precisamente aí que Tōkon começa a ficar bastante mais interessante.
Personagens
Falemos agora do elefante na sala. Ou melhor… dos 20 elefantes na sala.
O jogo chega ao mercado com um elenco composto por 20 personagens, entre heróis e vilões de diferentes cantos do universo Marvel.
E tenho de admitir que gosto bastante da direção artística escolhida.
Em vez de tentar fazer simplesmente um jogo Marvel realista, a Arc System Works fez aquilo que sabe fazer melhor: pegou nas personagens e transformou-as em versões extremamente estilizadas, exageradas e cheias de personalidade.

É exatamente assim que um jogo Marvel deste género deve ser.
Temos personagens bastante conhecidas como Spider-Man, Captain America, Iron Man, Deadpool, Black Panther e Star-Lord, entre outras. E embora seja inevitável existirem discussões relativamente ao roster escolhido, a realidade é que as personagens presentes conseguem representar bastante bem diferentes estilos de jogo.
Agora, obviamente, 20 personagens pode parecer pouco quando estamos perante um universo tão gigantesco como o da Marvel. Mas prefiro sinceramente ter 20 personagens bem trabalhadas do que 50 que parecem ter sido colocadas no jogo apenas para encher espaço.
E com a Arc System Works a tratar do desenvolvimento, existe aqui uma excelente base para futuros lutadores que possam chegar como DLC.
História
Como seria de esperar de um fighting game, a história não é propriamente aquilo que nos vai fazer comprar o jogo. Temos um torneio organizado pelo Champion of the Universe, que decide colocar vários grupos de heróis e vilões uns contra os outros.
A premissa é bastante simples: encontrar adversários suficientemente poderosos para proporcionar um bom espetáculo. Não estamos perante o próximo Red Dead Redemption, obviamente. Mas também não era isso que eu esperava.
O interessante é que a campanha está dividida por diferentes equipas, permitindo-nos acompanhar diferentes perspetivas dos acontecimentos. A história é apresentada através de uma espécie de banda desenhada digital, com diferentes artistas responsáveis pelas várias equipas.
É uma solução que sem dúvida combina bastante bem com o universo Marvel.
Modos de jogo
Felizmente, Tōkon não é daqueles jogos que nos dá uma campanha de cinco horas e depois simplesmente nos manda ir jogar online.
Temos vários modos disponíveis, incluindo os tradicionais Arcade e Survival, assim como outros modos mais descontraídos. Existe também o Arcadia Rumble, que funciona quase como uma espécie de modo party, permitindo aos jogadores andar pelo lobby e participar em combates mais descontraídos.
É uma adição interessante, especialmente para quem não quer imediatamente entrar no ambiente competitivo dos jogos online.
E isto é importante porque Tōkon parece querer ser simultaneamente um jogo para quem quer simplesmente pegar no comando e divertir-se durante meia hora e para quem pretende passar centenas de horas a aprender todos os detalhes do sistema de combate para dominar adversários online.
Gráficos e Performance
Aqui não há grande surpresa. Marvel Tōkon é lindo.
A Arc System Works já nos habituou a personagens extremamente estilizadas, animações exageradas e efeitos visuais capazes de fazer qualquer combate parecer uma cena retirada diretamente de um anime.
E com personagens Marvel? É uma combinação perfeita.
Os ataques são extremamente vistosos, os modelos das personagens têm bastante personalidade e existe uma quantidade absurda de efeitos no ecrã durante os combates. Como já referi, por vezes até demasiado.
Ainda assim, artisticamente falando, penso que a Arc System Works acertou completamente naquilo que queria fazer.
Marvel Tōkon tem identidade própria.
Conclusão
Pois bem, caro leitor, chegámos finalmente ao fim desta análise.
Marvel Tōkon: Fighting Souls é um excelente exemplo de como pegar numa fórmula conhecida e dar-lhe um twist próprio.
Temos um sistema de combate acessível, mas com bastante profundidade escondida por baixo, uma excelente apresentação visual, personagens Marvel extremamente bem adaptadas ao estilo da Arc System Works e uma estrutura que consegue agradar tanto a quem quer simplesmente jogar com os amigos como a quem pretende levar o jogo bastante mais a sério.
Não é perfeito.
A quantidade de elementos que aparecem simultaneamente no ecrã pode tornar alguns combates confusos, e acredito que alguns jogadores veteranos de fighting games possam inicialmente torcer o nariz aos comandos mais simplificados.
Mas, sinceramente?
Prefiro isto a um jogo que tenta afastar novos jogadores com sistemas absurdamente complexos logo nos primeiros minutos. Marvel Tōkon quer que qualquer pessoa consiga pegar no comando e divertir-se. E depois, se quiserem aprofundar o sistema, existe bastante espaço para isso.
É exatamente este equilíbrio que me parece ser uma das maiores virtudes do jogo.
Se és fã da Marvel e gostas de jogos de luta, penso que a recomendação é praticamente obrigatória. Mas, se nunca jogaste um fighting game porque sempre achaste que eram demasiado complicados, este pode ser precisamente o jogo para mudar essa opinião.
Em suma, Marvel Tōkon: Fighting Souls não vem substituir Marvel vs. Capcom, até porque seria injusto exigir isso.
Vem fazer aquilo que a Arc System Works sabe fazer melhor: pegar num universo extremamente popular, dar-lhe uma identidade artística fantástica e construir um fighting game que é simultaneamente fácil de começar e difícil de dominar.
Nota: 8/10 – Recomendado







