IPTV: Portugueses têm orgulho em ser piratas!

Há um fenómeno curioso em Portugal que já não dá para fingir que não existe. A pirataria de IPTV deixou de ser apenas um recurso para quem não tem alternativa. Ou seja, tanto o mais pobre dos pobres, como o mais rico dos ricos, aparenta ter uma subscrição de IPTV ilegal para ver futebol, ou outros desportos Premium.

Passou a ser quase um ato de protesto. Quem usa já não esconde. Pelo contrário, falam disso com orgulho, partilham contactos, recomendam serviços e fazem questão de mostrar o seu desagrado sempre que têm oportunidade.

Isto não acontece por acaso.

Não é amor à pirataria. É ódio ao sistema!

Pirataria, pirata

A maioria das pessoas não acorda a pensar “hoje vou ser pirata”. Até porque muitos dos Portugueses nem sabe muito bem como a coisa funciona. Aliás, existe cada vez mais um medo generalizado, porque as consequências vão eventualmente ser pesadas para quem anda no alto-mar.

Mas, especialmente em Portugal, o que existe é uma frustração acumulada. Alimentada durante anos, por um sistema que parece desenhado para afastar o adepto comum do consumo de futebol.

Afinal de contas, em Portugal, quem quer ver futebol nacional a sério não tem grande margem de escolha. Para ter acesso aos jogos do seu clube, é quase obrigatório passar pela Sport TV, e isso implica contratos, operadores específicos e preços que não encaixam na realidade salarial da região.

A Sport TV, ao lado da DAZN, é um serviço que faz muito pouco sentido em Portugal.

Estamos a falar de valores na ordem dos 35 euros por mês, sem flexibilidade real, sem liberdade para subscrever apenas quando interessa, e muitas vezes obrigando a pacotes de telecomunicações que a pessoa não quer nem precisa. Sim, só podes subscrever a Sport TV se tiveres um contrato com uma das operadoras de TV+Internet de Portugal.

Assim, quando a alternativa legal parece feita para excluir, o caminho ilegal começa a parecer legítimo aos olhos de muita gente.

O problema não é o futebol. É a forma como ele é vendido

Um canal de futebol devia ser o sonho de qualquer adepto. Em teoria, mais jogos, mais análise, mais cultura desportiva. Na prática, o que muitos sentem é o oposto.

A programação da Sport TV, que é inegavelmente o canal que se confunde com futebol em Portugal, vive obcecada pelos três grandes.

Infelizmente, o discurso gira quase sempre à volta de polémicas de arbitragem, e claro, o futebol jogado fica para segundo plano. Há pouco espaço para equipas pequenas, quase nenhuma atenção às divisões inferiores, e zero esforço para educar o público sobre tática, história ou contexto.

O resultado é um produto repetitivo, previsível e cansativo. Mas claro, vendido a preço premium.

Isto sem falar dos horários dos jogos. Temos partidas marcadas a uma segunda-feira à noite (20h~21h), pensados apenas e só para audiências televisivas e não para quem quer ir ao estádio viver o desporto rei.

Adeptos que trabalham no dia seguinte, deslocações longas, regressos a casa de madrugada. Tudo isto afasta pessoas do futebol real, vivido, no estádio. Aliás, até as pessoas que estão em casa, e preferem estar com a família, acabam por ligar menos ao futebol. Um jogo que termina às 23 horas faz muito pouco sentido para todos.

Antes havia futebol gratuito. Hoje? É mesmo muito raro.

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Durante anos, o futebol fez parte da televisão generalista Portuguesa. Havia jogos semanais em canal aberto, taças acessíveis, competições europeias acompanhadas até ao fim, isto mesmo sem clubes portugueses em prova.

Hoje isso praticamente desapareceu. O futebol foi fechado atrás de paywalls. Quem não paga, não vê. O que por sua vez também significa que, quem não pode pagar, fica de fora.

Quando se tira algo que era acessível e se transforma num luxo, é normal que as pessoas procurem atalhos. Ah… E que fiquem revoltadas, claro.

A comparação que ninguém gosta de fazer

O contraste com outros mercados é brutal e enervante.

Há serviços internacionais que oferecem ligas como Premier League, Bundesliga, La Liga e competições europeias por valores mais baixos, e de facto também sem contratos longos, sem fidelizações.

Em Portugal, paga-se mais para ver menos, com menos liberdade e menos qualidade percebida.

É que aqui entra o fator emocional. O adepto português é mais fã do seu clube do que do futebol em geral. Se o serviço mais barato não transmite Benfica, Porto ou Sporting, simplesmente não interessa.

Quando o pirata passa a ser o vilão… 

É curioso ver campanhas morais contra a pirataria feitas por empresas que, durante anos, ignoraram completamente o adepto comum. De facto continuam a ignorar.

O serviço está cada vez mais pobre de conteúdo, mais caro, e sem alternativas reais para quem quer de facto fugir à ilegalidade. Em Portugal não se vendem pacotes de jogos, apenas se vendem pacotes que prendem o consumidor a uma despesa que é demasiado pesada.

É curioso que, de repente, o problema é o utilizador que “rouba”. Não o sistema que cobra preços absurdos num país de salários baixos.

O contraponto é importante!

Sim, o futebol é caro. Os direitos estão cada vez mais caros, e Portugal é um mercado pequeno com muitos clubes a depender fortemente das receitas dos direitos de TV.

Mas… Não justifica tudo.

Orgulho em ser pirata é sintoma!

Em suma, quando um país chega ao ponto de normalizar a pirataria e até se orgulhar dela, o problema não está apenas nos utilizadores. Ou seja, está no modelo de negócio, na falta de alternativa, na desconexão total entre preços e realidade económica.

Enquanto o futebol for tratado apenas como produto financeiro, pensado para extrair o máximo possível de quem menos pode pagar, a IPTV ilegal vai continuar a crescer. Antes de mais nada, é o que é.

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Nuno Miguel Oliveira
Nuno Miguel Oliveirahttps://www.facebook.com/theGeekDomz/
Desde muito novo que me interessei por computadores e tecnologia no geral, fui sempre aquele membro da família que servia como técnico ou reparador de tudo e alguma coisa (de borla). Agora tenho acesso a tudo o que é novo e incrível neste mundo 'tech'. Valeu a pena!

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