Quantas vezes já disseste ou ouviste um amigo desabafar: “Eu só queria ver o jogo do meu clube este fim de semana, dava de bom grado 4 ou 5 euros para ver a partida no sofá descansado, sem ter de levar com fidelizações nem pagar mensalidades obscenas”?
Parece a coisa mais lógica do mundo na era do streaming e da flexibilidade digital. Até porque, em quase qualquer indústria moderna, pagas exatamente por aquilo que consomes.
Pois, em Portugal, quando o tema é o futebol na televisão, o conceito de Pay-per-View (pagar por jogo) pura e simplesmente não existe. E isto é algo que na minha cabeça nunca fez grande sentido até aqui. Especialmente nos tempos que correm, em que a pirataria ganha cada vez mais destaque.
Porque é que a Sport TV, a DAZN ou a BTV preferem empurrar milhares de adeptos para as listas manhosas de IPTV pirata em vez de abrirem uma torneira legal e barata de 4,99€ por 90 minutos de bola? A resposta, no fim do dia, é dinheiro.
O dinheiro comanda o mercado. Sempre.

Vamos fazer contas rápidas de mercearia que qualquer um percebe. Se fores um apaixonado por futebol e quiseres acompanhar tudo de forma estritamente legal em casa, a brincadeira ultrapassa facilmente os 50 ou 60 euros por mês só em canais de desporto. Tens de ter o canal que dá os jogos do campeonato, o canal que dá os jogos do Benfica, quer sejas adepto do clube ou não, porque vai sempre existir um jogo que vai ter de dar naquele canal. E ainda tens de ter a DAZN para outras competições.
Fazes as contas, e são 500€ ou 600€ por ano. É mais do que um bilhete de temporada.
E que tal ver o jogo a 4,99€? Só o jogo, e mais nada.

Se as operadoras disponibilizassem uma funcionalidade simples na box ou numa aplicação móvel permitindo comprar um jogo avulso por 4,99€ (ou até 3,99€ num jogo com menos cartaz), o panorama mudava radicalmente.
Milhares de adeptos que hoje recorrem a listas piratas instáveis ou que passam a noite aos pontapés ao router com falhas de sinal preferiam pagar meia dúzia de tostões pela paz de espírito de ver a transmissão oficial com qualidade máxima.
Ninguém precisa de ver 4 ou 5 campeonatos, ou 10 modalidades desportivas diferentes. Há quem pague estes canais para ver apenas e só 1 jogo por semana.
O porquê é óbvio!
Achas as mensalidades caras? Pois bem, elas são ainda mais caras para os cafés e restaurantes. E é exatamente por isso que o “jogo-a-jogo” não existe em Portugal.
Ou seja, se o Pay-per-View é tão lucrativo e óbvio no papel, onde está o travão? O travão está na forma como o ecossistema comercial foi montado em Portugal.
Como a pessoa comum não consegue pagar 60 euros por mês em casa, o que é que faz em dia de jogo grande? Vai para o café da esquina, junta-se com os amigos numa cervejaria ou marca uma mesa num restaurante. E é exatamente aqui que reside a verdadeira mina de ouro das emissoras desportivas. Os pacotes comerciais para estabelecimentos públicos não custam os 30 ou 35 euros do cliente particular: custam centenas de euros todos os meses!
Um estabelecimento comercial em Portugal paga um valor acrescido considerável para ter canais desportivos premium face aos valores para particulares. Rondando tipicamente um acréscimo de cerca de 86€ a 87€ por mês apenas pelos canais num pacote empresarial (como o Sport Office Pack da MEO), ou valores avulso dedicados a sociedades/empresas na ordem dos 65€/mês por cada canal (ex: Sport TV Sociedades ou DAZN Sociedades).
Antes de mais nada, o que pensas sobre isto? Pagarias 4,99€ de bom grado para ver o jogo grande do teu clube na televisão oficial sem fidelizações, ou já te habituaste a ir para o café com os amigos (ou a desenrascar uma alternativa) para contornar estas faturas abusivas?








