Os avisos sobre os perigos da inteligência artificial estão a multiplicar-se e, desta vez, vêm de dentro de uma das maiores empresas do setor. Um investigador que trabalhava na Google DeepMind (a divisão de IA da Google) demitiu-se e veio a público com um alerta arrepiante: acredita que a IA “tem o potencial de nos matar a todos” e que o tempo para evitar esse cenário pode estar a esgotar-se. Explicamos quem é, o que disse e porque nem todos concordam.
Quem fez o alerta
Chama-se Bilal Chughtai e era engenheiro de investigação na Google DeepMind, onde trabalhava precisamente na área da segurança e “alinhamento” da IA ou seja, em garantir que os sistemas avançados fazem o que os humanos querem e partilham os nossos valores. Deixou a empresa em julho de 2026 e, a 14 de setembro, publicou nas redes sociais (X e LinkedIn) a razão da sua preocupação.

“Acredito sinceramente que a IA tem o potencial de nos matar a todos, e que podemos estar a ficar sem tempo para evitar esse desfecho”, escreveu.
O que o preocupa
Chughtai explica que ficou alarmado com a velocidade da evolução. Quando entrou na área, em 2022, os sistemas de IA eram, nas suas palavras, “divertidamente inúteis”. Poucos anos depois, já se fala em agentes de IA capazes de agir de forma autónoma e ele receia que, dentro de poucos anos, as empresas construam sistemas superinteligentes que ultrapassem largamente as capacidades humanas, sem que existam métodos fiáveis para os manter sob controlo.
O problema central, segundo ele, é que o tal “alinhamento” garantir que uma IA muito poderosa continua a obedecer aos objetivos humanos continua a ser um problema científico por resolver. Ou seja: estamos a construir sistemas cada vez mais capazes sem sabermos, ao certo, como os controlar.
Não está sozinho e há quem discorde
Este alerta não é isolado. Faz parte de uma onda de avisos vindos de dentro da própria indústria. Dias antes, outro investigador tinha deixado a Anthropic (outra grande empresa de IA) com preocupações semelhantes sobre a corrida à “superinteligência”. Vários líderes do setor têm pedido para abrandar o ritmo de desenvolvimento.

Mas e isto é importante para não haver leituras enviesadas está longe de haver consenso. Muitos especialistas consideram estas previsões exageradas ou sem evidência suficiente, argumentando que a IA atual está muito longe dos cenários de ficção científica (do género “Exterminador” ou “Matrix”). E há quem defenda que travar o desenvolvimento seria um erro, o próprio presidente dos EUA, Donald Trump, rejeitou as preocupações, considerando os esforços de regulação um exagero, e defendendo que “quem ganhar na IA, ganha”.
Nem tudo é catastrofismo
Um pormenor que importa sublinhar: apesar do tom sombrio, Chughtai não diz que o desastre é inevitável. Pelo contrário, acredita que ainda é possível desenvolver IA de forma segura. Mas defende que isso exige duas coisas: muito mais transparência por parte das empresas, e coordenação entre os laboratórios. Isto para travar aquilo que descreve como uma corrida “maníaca” para construir sistemas cada vez mais poderosos.
Aliás, tanto ele como o outro investigador que saiu não abandonaram a área, foram trabalhar para organizações dedicadas a estudar os riscos da IA. A imagem é quase a de dois engenheiros a saírem de um carro que acelera cada vez mais para irem estudar os travões. E a pergunta que fica para toda a indústria é simples e incómoda: os travões vão evoluir tão depressa como o motor?
No fundo, este é mais um capítulo de um dos maiores debates do nosso tempo entre quem vê a IA como a maior oportunidade da história e quem a vê como o maior risco. A verdade, provavelmente, está algures no meio, e ninguém tem ainda todas as respostas. Mas quando quem constrói estas tecnologias começa a sair a avisar dos perigos, vale a pena, no mínimo, prestar atenção.






