Enquanto por cá pagamos assinaturas mensais para usar as versões mais avançadas do ChatGPT ou de outras ferramentas de IA, há um país que decidiu fazer exatamente o contrário. Oferecer inteligência artificial generativa grátis e sem limites a toda a população. A Coreia do Sul anunciou o programa “AI for All” (“IA para Todos”) e prepara-se para ser o primeiro país do mundo a tratar a IA como um serviço público básico.
Como vai funcionar
Ao contrário dos assistentes que já conheces, estes serviços não serão apenas chatbots isolados. A grande diferença é que vão estar ligados diretamente aos sistemas do Estado, ajudando os cidadãos em tarefas concretas do dia a dia: marcar consultas médicas, procurar casa para arrendar, tratar de questões fiscais ou consultar apoios disponíveis. As pequenas empresas poderão calcular impostos e verificar se têm direito a apoios estatais, e os pais receberão recomendações de conteúdos educativos para os filhos.

E há um pormenor que muda tudo: o acesso será gratuito e sem limites de utilização, ou seja, sem aquelas restrições de número de mensagens ou de “tokens” que as versões gratuitas atuais impõem.
Testes já em setembro
O programa arranca em fase de testes em setembro de 2026, com o lançamento alargado a todo o país previsto para o final do ano. Três consórcios tecnológicos sul-coreanos que incluem as duas maiores operadoras de telecomunicações do país e a empresa por trás da popular plataforma Kakao, ficarão responsáveis por desenvolver e operar os serviços, com o Estado a suportar parte da infraestrutura (incluindo a distribuição de até 512 chips avançados da Nvidia).
O investimento é enorme. O governo reservou o equivalente a cerca de 7 mil milhões de euros para despesas relacionadas com IA em 2026, o triplo do ano anterior.
Porque é que a Coreia do Sul está a fazer isto
A jogada tem uma lógica estratégica clara: reduzir a dependência de ferramentas estrangeiras, sobretudo dos Estados Unidos e da China. Estima-se que mais de 20 milhões de coreanos já usem IA generativa, a esmagadora maioria através de plataformas de fora, como o ChatGPT. Ao criar uma alternativa nacional e gratuita, o país quer estimular o uso de modelos próprios e ganhar autonomia tecnológica.
A iniciativa não está isenta de dúvidas. Assim há quem alerte para os riscos de a IA vir a substituir empregos, e ainda falta ver como se garante a proteção de dados e a qualidade dos modelos locais. Mas o simbolismo é enorme. A pergunta deixa de ser “qual é o melhor chatbot?” e passa a ser “deve o acesso à IA depender da capacidade de cada um para pagar?”.
É uma experiência que muitos países vão observar de perto, Portugal e a Europa incluídos. Se resultar, pode marcar o início de uma nova forma de encarar a inteligência artificial. Isto não como um produto pago, mas como um serviço para todos.








