Há uma história de tecnologia por trás da guerra ao futebol pirata em Espanha e o protagonista é, curiosamente, português. A LaLiga, a liga de futebol espanhola presidida por Javier Tebas, está a usar uma nova plataforma de inteligência artificial para detetar e bloquear as transmissões ilegais de jogos. E essa tecnologia foi criada por uma jovem empresa nacional: a Randy Labs.
O que é a DRE
A plataforma chama-se DRE (Digital Rights Enforcement) e o seu grande argumento é a automatização. Aquilo que antes exigia uma equipa de cerca de 200 pessoas a vasculhar manualmente links, servidores e transmissões durante cada jogo, passa a ser feito por agentes de inteligência artificial que trabalham de forma autónoma, ainda que com supervisão humana durante as partidas.

E a DRE não se limita a encontrar o site que está a emitir um jogo ilegalmente. O sistema segue o rasto do sinal. Como tal identifica a infraestrutura usada para o distribuir, contacta os intermediários e envia-lhes notificações a pedir que cortem a emissão. Se o destinatário responder a exigir provas, a própria IA é capaz de responder e defender a reclamação. E se as notificações não resultarem, entra em ação um segundo módulo, chamado Airon, que executa o bloqueio.
A empresa começou a ganhar visibilidade quando as notificações enviadas pela LaLiga a donos de sites passaram a trazer a assinatura “DRE by Randylabs”, antes não identificada.
Porque é que isto é importante (e polémico)
Para perceber o alcance desta novidade, é preciso conhecer o problema que ela promete resolver. Nos últimos anos, a LaLiga tornou-se conhecida pelos bloqueios em massa de endereços de internet para travar as transmissões piratas. O problema? Muitos sites legítimos, que nada têm a ver com futebol, ficaram apanhados no fogo cruzado. Isto porque partilhavam o mesmo endereço IP (em serviços de nuvem como a Cloudflare) com as plataformas piratas.

A dimensão do estrago foi enorme. Um relatório do Open Observatory of Network Interference (OONI) apontou que, em 2026, os bloqueios da LaLiga afetaram mais de 554 mil domínios, muitos deles sem qualquer ligação ao futebol. A situação gerou tanta polémica, com especialistas em direitos digitais a falar em violação do princípio da proporcionalidade que o próprio Congresso espanhol está a preparar uma reforma para limitar estes bloqueios. Aliás, a época 2026/2027 deverá ser a última em que a LaLiga poderá bloquear links da forma como o tem feito.
É aqui que a tecnologia portuguesa entra como possível solução: a Randy Labs garante que a DRE consegue ser cirúrgica, bloquear apenas os sinais ilegais sem pôr em risco os serviços legítimos. Se a promessa se confirmar, resolve precisamente o calcanhar de Aquiles de toda esta guerra.
E de quem vê os jogos?
Um esclarecimento importante para não haver equívocos: a lei distingue quem distribui o sinal pirata (isso é considerado crime contra os direitos de autor) de quem apenas consome (vê o jogo num link ilegal), cuja situação legal é diferente. O alvo da DRE são os distribuidores e a infraestrutura, não o espectador.
Ainda assim, fica sempre o aviso de segurança: as IPTV e os sites de streaming pirata são um íman para malware e roubo de dados. Entretanto o “grátis” costuma sair caro em privacidade. Poupas na assinatura, mas arriscas o telemóvel, o cartão e os dados.
No fim, fica o motivo de orgulho tecnológico. Numa área dominada por gigantes, é uma empresa portuguesa que está a fornecer a arma mais avançada de uma das maiores ligas de futebol do mundo. Mais uma prova de que o talento nacional em IA tem mesmo com que se mostrar lá fora.






