O frigorífico deixou de arrefecer. Corres a meter a comida em sacos térmicos e ficas com aquela decisão desagradável em cima da mesa: mando arranjar ou compro um novo? Antes de decidires seja o que for, há duas coisas que tens de verificar e a maioria das pessoas não faz nenhuma delas.
Frigorífico avariou? Primeiro: verifica a garantia (e sim, são 3 anos)
Este é o passo que mais dinheiro poupa e o mais ignorado. Desde 1 de janeiro de 2022, a lei portuguesa (Decreto-Lei n.º 84/2021) dá-te três anos de garantia legal em qualquer bem móvel novo comprado a um profissional, eletrodomésticos incluídos. Não são dois. São três.

E há um pormenor que joga a teu favor: durante os primeiros dois anos, presume-se que o defeito já existia no momento da entrega. Ou seja, não tens de provar nada, basta apresentares o talão. É o vendedor que tem de provar o contrário, se quiser recusar.
No terceiro ano a coisa inverte-se: aí és tu que tens de provar que o defeito já vinha de origem.
Mais um detalhe importante: a garantia conta-se a partir da entrega ou instalação, não da data da compra. No caso de um frigorífico entregue e instalado em casa por um técnico, é essa a data que vale.
Segundo: mesmo fora da garantia, o fabricante tem obrigações
Aqui está a parte que quase ninguém conhece, e que muda o jogo.
A mesma lei obriga os fabricantes a disponibilizar peças sobresselentes durante 10 anos após a última unidade do produto ter sido colocada no mercado. Traduzindo: mesmo que o teu frigorífico já tenha cinco ou seis anos, o fabricante não pode simplesmente dizer “já não há peças”.

E há ainda um prazo: a reparação ou substituição deve ser feita em 30 dias, salvo casos de maior complexidade.
Se te disserem que “não vale a pena, já não se arranja”, vale a pena insistir e lembrar que o incumprimento é contraordenação grave.
Agora sim: a conta. A regra dos 50%
Se estás mesmo fora de garantia e vais pagar do teu bolso, existe uma regra prática simples para decidir:
Se a reparação custar menos de metade do preço de um frigorífico novo equivalente, vale a pena arranjar.
Exemplo concreto: se um frigorífico novo do mesmo nível te custaria 600 euros, e a reparação fica abaixo dos 300 euros, arranjar faz sentido. Acima disso, começa a compensar comprar novo, sobretudo porque um aparelho novo traz garantia de três anos e, normalmente, melhor eficiência energética.
Quanto custam as reparações mais comuns
Os problemas mais frequentes num frigorífico, por ordem de gravidade para a carteira:
- Compressor — a reparação mais cara de todas. É o coração da máquina, e quando vai, o orçamento sobe bastante. É frequentemente aqui que a regra dos 50% manda comprar novo.
- Termóstato — reparação de custo intermédio, normalmente ainda compensa.
- Máquina de gelo — das mais baratas de resolver.
- Borrachas da porta, dispensadores de água e motores de ventoinha — costumam ser reparações acessíveis.
O tipo de aparelho também pesa. Frigoríficos encastráveis e modelos side-by-side / French door têm reparações mais caras do que um combinado normal. Tamanho e materiais (o inox, por exemplo) também fazem subir a fatura.
Quantos anos deve durar um frigorífico?
Como referência: a vida útil média de um frigorífico anda pelos 8 a 10 anos, embora muitos modelos aguentem bem mais.
Isto é útil para a decisão: se o teu já tem 12 anos e precisa de compressor novo, dificilmente compensa. Se tem 4 e precisa de um termóstato, arranja-se sem hesitar.
O que podes verificar tu (e o que não deves tocar)
Antes de chamares o técnico, há três coisas que podes fazer sozinho e que resolvem uma boa parte dos sustos:
- Confirma os botões de temperatura — não é raro terem sido mexidos sem ninguém dar por isso (as crianças, uma limpeza).
- Verifica as borrachas da porta — algo encravado, ou uma borracha suja, faz o frigorífico trabalhar sem parar e não arrefecer bem.
- Limpa as serpentinas do condensador — se estiverem cheias de pó, aspira-as. É das causas mais comuns de mau desempenho.
O que NÃO deves fazer: tentar reparar o aparelho por ti. Um frigorífico junta água, eletricidade e gás refrigerante, é um risco de segurança real se não souberes o que estás a fazer. E se causares danos, podes anular a garantia que ainda tinhas.

Em resumo
A ordem certa é esta:
- Verifica a garantia — se estiver dentro dos 3 anos, a reparação deve ser gratuita.
- Fora da garantia, lembra-te das peças obrigatórias durante 10 anos antes de aceitares um “não tem arranjo”.
- Aplica a regra dos 50% — abaixo de metade do preço de um novo, arranja.
- Faz as verificações simples antes de chamar alguém.
Muita gente deita fora eletrodomésticos que a lei obrigava a serem reparados. Não sejas uma delas.







