Enquanto em Portugal o sistema Volta dá os primeiros (e atribulados) passos, do outro lado da fronteira aconteceu o contrário. O Governo francês desistiu de impor um sistema nacional de depósito e reembolso de garrafas de plástico, muito parecido com o nosso. E o mais curioso é que as razões apontadas em França são, em boa parte, as mesmas queixas que já se ouvem por cá.
O que a França decidiu
A decisão foi anunciada a 8 de setembro, depois de três meses de reuniões com autarquias, empresas de bebidas e operadores de reciclagem. Em vez de um modelo obrigatório para todo o país, cada região poderá criar (ou não) o seu próprio sistema, adaptado à realidade local, sobretudo nas zonas onde a recolha é mais fraca.

“Não será implementado qualquer sistema de depósito obrigatório”, justificou o Governo francês, invocando o princípio da descentralização e a experiência das autarquias na gestão de resíduos.
As razões (que vais reconhecer)
Foi a forte oposição das câmaras municipais que travou o projeto. E os argumentos são interessantes:
- Muitas autarquias investiram bastante nos últimos anos a modernizar os seus centros de triagem e ecopontos. Por isso, viam o novo sistema como um prejuízo financeiro.
- Além disso, várias associações de municípios defenderam que pagar uma recompensa por devolver embalagens (“monetizar o lixo”) podia desvalorizar o gesto voluntário de reciclar em casa, que se faz por civismo e não por dinheiro.
Apesar do recuo, a França mantém a meta de reciclar 55% do plástico até 2030. O problema é a enorme assimetria: cerca de 230 estruturas intermunicipais já atingem taxas de recolha de 77%, enquanto outras, sobretudo urbanas, ficam abaixo dos 35%.
E o Volta em Portugal, como vai?
A comparação é inevitável, sobretudo porque o Volta tem estado debaixo de fogo. Lançado a 10 de abril de 2026, com um investimento de 150 milhões de euros, tornou Portugal o pioneiro no Sul da Europa continental num sistema desta escala. O modelo é conhecido: pagas 10 cêntimos de depósito por cada garrafa ou lata (até 3 litros) e recuperas esse valor ao devolvê-la numa máquina ou ponto de recolha.
Mas a implementação tem corrido com percalços. Em setembro, a própria ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, admitiu falhas e prometeu reforçar a fiscalização e o número de máquinas.

As queixas mais comuns dos portugueses são conhecidas de quem já tentou usar o sistema:
- Máquinas fora de serviço ou “indisponíveis” com frequência, porque enchem depressa e dependem dos funcionários dos supermercados para serem esvaziadas.
- Um efeito colateral inesperado: os 10 cêntimos criaram um fenómeno de desordem urbana, com relatos de pessoas a revirar ecopontos amarelos e contentores na rua à procura de garrafas e latas com o selo Volta, deixando lixo espalhado pela via pública.
Então, Portugal devia recuar como a França?
Aqui é preciso rigor, para não tirar conclusões apressadas. Ao contrário da França que ainda estava na fase de decidir, Portugal já implementou o Volta, com máquinas instaladas e milhões investidos. Recuar agora seria muito diferente de simplesmente não avançar.
Por isso, o Governo português não tem planos de eliminar o sistema. A aposta é a oposta da francesa: em vez de desistir, quer corrigir as falhas, mais máquinas (sobretudo de maior capacidade), mais fiscalização e mais pontos de entrega, precisamente para resolver os problemas de máquinas cheias e indisponíveis.
No fundo, os dois países chegaram a conclusões diferentes sobre o mesmo modelo: a França decidiu que não valia a pena impô-lo a todo o território, enquanto Portugal aposta em fazê-lo funcionar melhor. Qual das abordagens dará mais frutos, só o tempo e as taxas de reciclagem dirão.






