Um fóssil descoberto no deserto de Gobi, na Mongólia, acaba de resolver um mistério que durava há quase 40 anos. A nova espécie, batizada de Tamirkhan balcarceli, revela que um grupo de mamíferos extintos não era, afinal, parente próximo dos mamíferos placentários atuais.
Um enigma que vinha de dentes isolados
Os cientistas conheciam os zhelestídeos há quase 40 anos, mas apenas através de dentes isolados e fósseis fragmentados. Os dentes destes animais eram particularmente estranhos. Eram mais especializados para comer plantas do que os dentes afiados de muitos mamíferos do Cretácico, que se alimentavam sobretudo de insetos.
Um debate que dividia paleontólogos
Por isso, essa estranheza nos dentes levou muitos investigadores a defender que os zhelestídeos representavam um grupo desconhecido de mamíferos com casco. Durante décadas, discutiu-se a que grupo pertenciam. Podiam ser mamíferos placentários do período Cretácico, o grupo que hoje inclui os humanos, ou uma linhagem separada que desenvolveu características semelhantes de forma independente.
O fóssil mais completo já encontrado
O novo fóssil, descoberto no leste do deserto de Gobi, é o exemplar mais completo de zhelestídeo alguma vez encontrado. Tamirkhan mede entre 15 e 18 centímetros, do focinho à cauda, sensivelmente o comprimento de um lápis novo. As patas traseiras compridas davam-lhe um andar saltitante, parecido com o de um coelho. Os coelhos verdadeiros só surgiriam dezenas de milhões de anos mais tarde.
O que o esqueleto revelou
Tamirkhan tem os dentes baixos e arredondados típicos dos zhelestídeos. No entanto, também tem incisivos longos e de crescimento contínuo. Tem ainda várias características do crânio associadas a um grupo diferente, os zalambdalestoides, pequenos mamíferos insetívoros parecidos com musaranhos. As patas traseiras longas e finas, com tornozelos distintivos, confirmaram esta ligação. A conclusão é de Shawn Zack, paleontólogo da Universidade do Arizona e um dos autores do estudo.
Com base no esqueleto completo, a equipa reclassificou os zhelestídeos. Passaram a integrar o grupo dos zalambdalestoides, e não os mamíferos placentários. Os dentes arredondados não eram, afinal, prova de parentesco com animais de casco. Eram antes um caso de evolução convergente, em que animais sem relação próxima desenvolvem características semelhantes por comerem o mesmo tipo de alimento.
Um lugar que continua a surpreender
O deserto de Gobi é um dos poucos locais do mundo onde se encontram, com regularidade, esqueletos de mamíferos do Cretácico tão completos como este. Além disso, fora da Mongólia, fragmentos deste grupo só tinham aparecido no Cazaquistão, no Quirguistão e no Usbequistão. Isso torna cada nova expedição a esta região particularmente valiosa para a paleontologia.
Uma lição sobre confiar só nos dentes
Há mais de 200 anos, o naturalista francês Georges Cuvier defendia que um único dente permitia prever a anatomia de todo um animal. Segundo a investigadora Maureen O’Leary, da Universidade de Stony Brook, os dentes continuam entre os fósseis mais informativos. Ainda assim, este trabalho mostra que nem sempre revelam como era o animal completo.
Achavas possível que um único fóssil pudesse mudar décadas de interpretação científica?







