Abres a fatura da luz, olhas para o total, achas que está caro e pagas. É o que quase toda a gente faz, e é precisamente aí que se perde dinheiro. A fatura tem dezenas de linhas, mas só meia dúzia decidem o que pagas, e perceber quais são pode fazer a diferença entre um contrato ajustado a ti e um que te cobra a mais há anos sem que dês por isso.
Como ler a fatura da luz sem te perderes
Toda a fatura da luz se divide em duas partes. O termo fixo é a potência contratada, um valor diário que pagas mesmo que passes o mês fora de casa. O termo variável é a energia que realmente gastaste, medida em kWh, multiplicada pelo preço de cada kWh. Em ambos entra a tarifa de acesso às redes, fixada todos os anos pela ERSE (a entidade reguladora), por isso não é aí que uns comercializadores são mais baratos do que outros.

Convém ainda olhares para o tipo de leitura. Se a fatura indica que o consumo é estimado, o comercializador calculou o que achou que gastaste, e isso pode sair-te caro num mês e ser acertado noutro. Quem não tem contador inteligente pode (e deve) comunicar a leitura real do contador dentro das datas indicadas na fatura, para evitar surpresas.
Os impostos e taxas que ninguém explica
Além da energia e da potência, a fatura leva encargos que não dependem do tarifário. A Contribuição Audiovisual, que financia a rádio e a televisão públicas, ronda os 3 euros por mês já com IVA (e desce para 1 euro mais IVA para quem tem tarifa social). Há também o Imposto Especial de Consumo de Eletricidade e uma taxa de exploração da DGEG, ambos definidos pelo Estado e iguais seja qual for a empresa a que compres a luz.
O IVA é a parte mais confusa. Quem tem potência contratada até 6,9 kVA paga IVA de 6% apenas nos primeiros 200 kWh de cada período de 30 dias, e o que passar disso paga 23%. A Contribuição Audiovisual também leva 6%, mas o termo de potência do comercializador, o imposto especial e a taxa da DGEG pagam 23%. Ou seja, a fatura mistura duas taxas de IVA, e é normal que o total não seja proporcional ao consumo.
Os erros que te fazem pagar a mais
O erro mais comum é teres uma potência contratada acima do que precisas. Cada nível de potência tem um custo diário, e muitas casas têm um escalão acima do necessário. Antes de baixares, pensa nos picos de consumo (forno, placa, aquecimento e máquina de lavar ao mesmo tempo). Isto porque se for consumo a mais o quadro desarma, e aí o poupado não compensa o incómodo.
O segundo erro é o ciclo horário. Se consomes sobretudo à noite e ao fim de semana (máquinas programadas, carregamento de carro elétrico, trabalho por turnos), o bi-horário pode compensar; se estás em casa durante o dia, o simples costuma ser melhor. O terceiro é nunca comparares tarifários: o simulador de preços da ERSE é gratuito e mostra a opção mais barata para o teu perfil. E o quarto é não confirmares se tens tarifa social, que em princípio se atribui automaticamente a quem cumpre os critérios, mas vale a pena ver se aparece na tua fatura.

E se a fatura não bater certo?
Se encontrares um valor que não reconheces, começa por pedir esclarecimentos ao comercializador, de preferência por escrito. Se não resolver, podes reclamar no Livro de Reclamações (incluindo o eletrónico) e recorrer a um centro de arbitragem de conflitos de consumo.
Convém também saberes que, como regra geral, nos serviços essenciais como a eletricidade o direito de exigir o pagamento prescreve seis meses depois da prestação do serviço. Isto limita as cobranças retroativas. Como cada caso tem as suas particularidades, confirma a tua situação junto da ERSE ou da DECO. Pelo menos antes de pagares um acerto que te pareça estranho.
No fundo, a fatura da luz não é um documento para pagar de olhos fechados. Dez minutos a confirmar a potência, o ciclo e o tarifário podem baixar a conta durante anos, sem apagares uma única luz.
E tu, quando foi a última vez que olhaste para a potência contratada na tua fatura da luz?








