Depois do que aconteceu na região de Leiria, com apagões prolongados e destruição em várias zonas, surgiu uma pergunta interessante: como é que quem tem carro elétrico se desenrascou? Afinal de contas, isto dá força àquele argumento irritante… “Quando faltar a luz, ficas a pé.”
Pois bem, a realidade parece ter sido mais complexa do que isso.
Nos últimos dias, com alguma normalidade a voltar ao dia-a-dia dos mais afetados, vários relatos têm chegado à Internet. Todos eles extremamente interessantes.
Vieira de Leiria no centro da destruição
Um dos relatos mais diretos vem de Vieira de Leiria, uma das zonas mais afetadas. Durante vários dias não houve energia. Isto significa que o carro elétrico não pôde ser carregado em casa, por isso… Acabou por ser necessário recorrer temporariamente a um carro a combustão.
Porém, antes da troca, o carro elétrico foi essencial para manter a casa a funcionar nos mínimos da decência humana. Ou seja, iluminação e eletrodomésticos. O carro não ficou parado… Transformou-se numa powerbank gigante.
V2L. O “powerbank com rodas”
Vários proprietários falaram da tecnologia V2L, vehicle-to-load. Algo que muitas vezes os condutores não dão grande importância, mas que fez de facto a diferença no meio da crise. Basicamente, permite ligar uma extensão ao carro e usar a bateria para alimentar equipamentos domésticos.
Frigorífico, iluminação, pequenos eletrodomésticos, routers para manter internet ativa. Em alguns casos, com instalação preparada, é possível alimentar praticamente a casa inteira dentro do limite de potência disponível, normalmente à volta dos 3.3 kW.
Para se ter uma ideia do que é possível fazer uma ideia do que é possível fazer, com a bateria a 100%, é possível manter o frigorífico a funcionar durante mais de duas semanas. Dito isto, se existir um ponto de carregamento ativo algures, basta ir carregar o carro e trazê-lo novamente para casa.
Muito interessante e até curioso.
Carregar fora. Improvisar. Adaptar.
Muitos tiveram de improvisar.
Houve quem carregasse no trabalho. Outros recorreram a parques subterrâneos que estavam a funcionar com geradores e tinham postos de 22 kW operacionais. Em Leiria, alguns carregamentos disponíveis eram apenas em AC a 11 kW, o que naturalmente limita a velocidade, mas ainda assim permitiu manter mobilidade e esperança.
Também houve quem notasse uma redução significativa de elétricos nas estradas nos dias seguintes à catástrofe, o que mostra que nem tudo correu sem dificuldades.
Afinal de contas, a rede pública já é problemática em condições normais, com carregadores avariados, cabos roubados ou ocupados. Em cenário de crise, a pressão é ainda maior.
E afinal, qual é a conclusão?
Esta catástrofe mostrou duas coisas ao mesmo tempo.
Um carro elétrico bem preparado pode ser parte da solução, não apenas de um potencial problema.
Sim, é verdade que houve quem tivesse de recorrer a carros a combustão temporariamente. É verdade que a rede pública de carregamento tem falhas. Mas também é verdade que muitos proprietários conseguiram manter luz, frigorífico e internet graças à bateria que tinham estacionada na garagem.
No final do dia, ter carros a pilhas não foi assim tão mau no meio do caos.






