Cobriu Albergaria-a-Velha de granizo como se fosse neve, arrancou telhados e partiu árvores em minutos e trouxe para as bocas do mundo uma palavra que a maioria dos portugueses nunca tinha ouvido: downburst. O IPMA usou-a para explicar o temporal de 5 de setembro no distrito de Aveiro. Mas o que é, afinal, um downburst? E porque é que os especialistas dizem que vamos ouvir falar dele cada vez mais? Explicamos tudo.
O que é um downburst
Um downburst, que se pode traduzir por “rajada descendente”, é uma corrente de ar que desce muito depressa de uma nuvem de trovoada e que, ao chegar ao solo, se espalha em todas as direções.

A melhor imagem para o entenderes é a de uma torneira: quando a água cai e bate no fundo do lava-loiça, espalha-se para os lados com força. É isso que o ar faz num downburst, precipita-se de cima, embate no chão e dispara horizontalmente, gerando rajadas de vento muito fortes (que podem ultrapassar os 100 km/h) numa área relativamente pequena.
Como é que se forma
Por trás deste fenómeno está um processo curioso de física da atmosfera. Dentro de uma nuvem de trovoada, quando começam a cair grandes quantidades de chuva e granizo, acontecem duas coisas: parte da água evapora e parte do gelo passa diretamente a vapor. Ambos os processos retiram calor ao ar em redor.
Esse ar, ao arrefecer, fica mais denso e pesado e, como tudo o que é pesado, tende a afundar-se. A própria queda da chuva e do granizo ajuda a “arrastar” o ar para baixo. Quando esta corrente descendente ganha força suficiente, transforma-se num downburst. É por isso que a presença de ar seco nos níveis baixos da atmosfera (que favorece a evaporação) é um dos ingredientes-chave foi, aliás, o que o IPMA identificou no caso de Aveiro.
Downburst ou tornado? A diferença que confunde toda a gente
É o erro mais comum, e vale a pena esclarecer. Muitos estragos atribuídos a “tornados” são, na verdade, obra de downbursts. A diferença está no movimento do ar:
- Num tornado, o ar roda em torno de um eixo vertical, formando o característico funil que desce da nuvem.
- Num downburst, o ar desce e espalha-se para fora, sem rotação, é um movimento de cima para baixo, não em espiral.
Há uma pista prática que os meteorologistas usam para distinguir os dois depois do temporal: no downburst, as árvores e os destroços ficam caídos todos na mesma direção (empurrados para fora do ponto de impacto), como um leque; num tornado, ficam espalhados em várias direções, por causa da rotação.

Micro ou macro: nem todos são iguais
Os downbursts dividem-se por tamanho. Os microbursts afetam áreas com menos de 4 quilómetros — são pequenos, mas extremamente intensos e súbitos. Os macrobursts são maiores e podem varrer vários quilómetros. Ambos são perigosos, mas os microbursts são especialmente traiçoeiros pela forma repentina como surgem.
Aliás, os downbursts são um dos maiores perigos conhecidos para a aviação: uma rajada descendente durante a descolagem ou a aterragem pode ser fatal, e vários acidentes históricos foram atribuídos a este fenómeno. É por isso que os aeroportos modernos têm sistemas específicos para os detetar.
Porque podem tornar-se mais frequentes
Aqui está a razão pela qual vale a pena conhecer este fenómeno. As trovoadas intensas e os downbursts que delas resultam, dependem de muita energia e instabilidade na atmosfera. E, com o aquecimento global, a atmosfera tende a ter mais energia e mais humidade disponível, o que favorece a formação de tempestades mais violentas e de eventos extremos como granizo de grande dimensão e rajadas destrutivas.
Ou seja, episódios como o de Albergaria-a-Velha, que antes pareciam raros, podem passar a acontecer com mais regularidade, sobretudo nas mudanças de estação, quando o ar quente à superfície se encontra com ar mais frio em altitude.
O que fazer quando há aviso
Como um downburst se forma e atua em poucos minutos, a melhor proteção é a prevenção. Quando o IPMA emitir um aviso de trovoada com possibilidade de granizo e rajadas fortes (como o aviso amarelo que estava ativo no dia do temporal de Aveiro), vale a pena:
- Recolher as viaturas para locais abrigados: o granizo grande amolga carros com facilidade.
- Arrumar objetos soltos em varandas, quintais e terraços, que as rajadas podem projetar.
- Evitar sair durante o pior da tempestade e afastar-se de árvores e estruturas frágeis.
- Ter atenção a telhados e coberturas mais antigos, os primeiros a ceder às rajadas.
No fundo, o downburst é um lembrete de que o tempo, em poucos minutos, pode passar de ameaça a estragos reais. Conhecê-lo é o primeiro passo para não ser apanhado desprevenido da próxima vez que o céu escurecer a sério.








