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Cyberbullying: Crianças e Adolescentes em Perigo

Bruno Fonseca

Publicado a

Os computadores, a Internet, os jogos virtuais, os telemóveis, as mensagens instantâneas e as redes sociais virtuais são lugar-comum dos jovens de hoje. Sem estes, qualquer jovem do mundo ocidental se sente “desamparado”, chegando mesmo a sentir-se desenquadrado e inseguro, senão for “cliente” habitual destas tecnologias. Quantos jovens, ou mesmo alguns adultos, se sentem aflitos por não terem “rede”, essa coisa invisível que nos prende a mundo de comunicação e partilha.

Os computadores pessoais e internet, encontram-se, neste momento numa percentagem muito elevada dos lares portugueses. Segundo o INE, em 2007, 52% da população portuguesa tinha acesso em casa à internet. Com a implementação do programa governamental da “e-Escolas”, a partir do ano de 2008, pressupõe-se que este número tenha aumentado substancialmente. Se acrescentarmos os acessos na escola, bibliotecas e wi-fi em espaços públicos, devemos estar perto dos 90% da população com acesso à internet.

Se tivermos em conta que em Portugal existem mais telemóveis activos do que população, obtemos uma situação em que todos nós estamos de uma maneira ou de outra, interligados electronicamente. Hoje em dia o acesso à comunicação móvel, proporciona uma capacidade mais rápida de sermos ouvidos e ouvir, de expressar sentimentos, de pedir ajuda, de obter informação e também de sermos por esta via insultados, verbalmente agredidos, chantageados, coagidos e ameaçados. Uma nova via para uma atitude antiga… Se juntarmos as estas atitudes, a vantagem de acoplarmos imagens e vídeos, e de a efectuar anonimamente, abrimos um novo mundo à agressão e ao bullying, o cyberbullying.

 

Cyberbullying, ebullying, bullying electrónico, cyber-violência, cyber assédio, assédio electrónico, etc. são as designações encontradas para o mesmo tipo de agressão. Mundialmente em verdadeira expansão, este tipo ou forma de bullying só granjeou atenção por parte dos investigadores e autoridades, aquando, mais uma vez, existiram suicídios de jovens /crianças, relacionados com agressões através da internet.

Definição e tipologia do Cyberbullying

“What makes cyberbullying so dangerous is that anyone can practice it without having to confront the victim. You don´t have to be strong or fast, simply equipped with a cell phone or computer and willingness to terrorize.”

(King, 2006)

O cyberbullying define-se como, ameaças ou comportamentos ofensivos enviados via meios electrónicos de comunicação online para a, ou as vítimas. Podem ser também informações/ameaças/agressões, com os mais variados formatos, imagens, fotos, vídeos ou texto, colocados e difundidos on-line, sobre e para uma vítima, com o objectivo de que outros vejam. As primeiras referências ao cyberbullying surgem em 2002, mas a suas primeiras definições aparecem somente em 2003 pelo advogado norte americano, Nancy Willard (2003) e pelo canadiano Bill Belsey (2005), que definiu da seguinte forma:

No entanto na generalidade dos autores mais recentes, ou nas suas revisões mais recentes são consensuais em considerar que a definição exposta na Wikipédia, é a mais completa e abrangente, consideramos nós que este facto se deve à contribuição e conjugação de todos nesta plataforma. Na wikipédia, em língua inglesa a definição de cyberbullying é:

O cyberbullying é diferente do bullying convencional. O tipo de agressão produzida por via electrónica é mais acentuada em algumas características que a agressão “normal”, por quatro principais motivos: Em primeiro, a agressão pode partir de qualquer um, em qualquer lugar, pode ser o vizinho do lado, o colega de carteira ou alguém que nem sequer nos conhece, pode viver perto ou viver longe, não conhecemos a cara, o género ou a idade, em suma pode ser totalmente anónimo; Em segundo, persegue a vítima para todo o lado, qualquer tentativa de acesso ao mundo virtual pode-se transformar numa agressão, o espaço físico deixou de ter importância; em terceiro a divulgação da agressão é instantânea para os milhões de observadores que se encontram conectados à rede virtual; e em quarto a agressão é somente psicológica.

O cyberbullying, tal como o bullying normal é perpetrado mais pelo sexo masculino, no entanto existe um aumento significativo de bullies femininos no cyberbullying. Estas variações de incidência tem muito que ver com o tipo de agressão no cyberbullying, a importância da capacidade física deixa de ter relevância dado que esta não faz parte dos métodos utilizados.

Perceber os diferentes tipos de utilizados pelo cyberbullying, faz com que consigamos entender as motivações possíveis que estão no cerne desse mesmo acto. Estes tipos ou formas de cyberbullying não devem ser considerados como estanques, estereotipados ou perfis absolutos. Estes perfis dependem sempre, tal como concerne à base dos motivos que os produzem e as influências que podem criar um bully, são influenciados pela personalidade de quem o concretiza. Assim a quantidade de variantes aos tipos de cyberbullying que de seguida explanamos, são quase infinitos…

A investigação sobre o cyberbullying, tem sido efectuada pelo mundo inteiro, muito devido, não só há informação e classificação dos casos, como o conhecimento por parte dos bullies, de como o fazer. Infelizmente as prevenções acontecem sempre depois dos crimes… mas também podemos pensar que é totalmente impossível desenvolver métodos de prevenção sem saber do que nos estamos a precaver… Até ao ano de 2005, somente países como o Canadá, Estados Unidos, Reino Unido e países escandinavos, desenvolviam observação e investigação sobre este nosso assunto. Hoje os estudos, comunicações e prevenções foram alargados a quase todos os países civilizados, ou com desenvolvimento tecnológico. Desde o Japão, Austrália, Coreia do Sul, Espanha, França, Bélgica, Itália até ao Brasil, as investigações e prevenções têm sido cada vez mais apuradas e executadas. O cyberbullying é uma temática actual e, podemos classificar, mundial.

A existência de alguma estatística revela esta investigação e preocupação. Embora pouco aprofundados e com alguma margem de erro, já foram realizados estudos de incidência em alguns países a nível mundial. Aqui apresentamos algumas das estatísticas, que tivemos acesso, de vítimas de cyberbullying em alguns países: na Grã-Bretanha, um em quatro estudantes já foi molestado online; Nos estados Unidos da América, 75 a 85% das crianças; 43% já foram atormentadas enquanto se encontravam online; Singapura, 14% já foi molestada via SMS e 13% nos chats online; Índia, 65% dos alunos foram vítimas de bulling via telemóvel; Canadá, 50% conhece alguém que já foi vitima, 84% dos professores já foram molestados, 40% das vitimas não sabe quem foi o autor dos ataques; Austrália, 42% das raparigas entre os 12 e os 15 anos foram molestadas; na China, Japão, Espanha, França, Bélgica, Itália e Portugal ainda não existem estudos publicados sobre a incidência e impacto deste fenómeno.

Estima-se que, em todos os países onde foram efectuados inquéritos, a incidência do cyberbullying na população jovem, se encontre entre os 10 e 40% de vítimas. Alguns autores e sites dedicados ao tema afirmam que estas estatísticas pecam por defeito, deduzindo estes, que existem muitas vítimas que por vergonha, medo ou coação, não divulguem a sua condição.

Tipologia do cyberbully

Entender os diferentes tipos de cyberbullies permite perceber o que se encontra por detrás do acto em si. Embora não devam, nem possam ser, considerados como perfis uniformes, estereotipados e típicos, podemos dividir em cinco tipos de bullies:

O Anjo Vingativo, o bullie que por vingança, dele ou de um companheiro, ataca nos mesmos moldes em que foi/foram atacados. Contra-ataca com as mesmas armas de que foi vitima.

– A Sede de Poder. Pratica o cyberbullying como meio de exercer poder sobre os outros, utilizando tácticas de medo. Normalmente é um indivíduo envergonhado ou mais reservado que consegue “esconder-se atrás” do computador e sentir-se poderoso.

A Vingança dos Totós (“nerds”). Quem é bully online com o objectivo de espalhar o medo ou embaraço às vitimas, normalmente é efectuado como competição, ( já se detectaram escalas de qualificações, com a quantidade de vitimas obtidas por cada participante, como pontuação). São indivíduos pouco respeitados no mundo real, normalmente apelidados de totós. Actuam “escondidos” no meio, mais uma vez sentindo-se poderosos.

As Meninas Más. Meninas que se encontram “chateadas” e procuram divertimento. Normalmente é produzido em grupo, ou porque este se encontra aborrecido, ou por alguém que quer fazer parte desse mesmo grupo.

Inadvertidamente. Quem é bully sem ter consciência que o está a ser. Acontece muito nos jogos online. Aqui existe a ofensa que se confunde com divertimento. Normalmente não se tem percepção do que se está a fazer. Quando percebem o que provocaram, os pseudo-agressores ficam com remorsos

Métodos de cyberbullying

Poder-se-ia dividir em dois tipos os métodos utilizados no cyberbullying: os métodos que não são mais do que uma extensão do bullying convencional, em suma um “veículo” do bullying convencional, e os novos métodos que alem de tirarem partido do meio (comunicação), o fazem com novas características. No entanto não poderemos nunca saber, efectivamente, qual é qual, tendo de ser estudado caso a caso e a partir dai perceber em que grupo se pode inserir o método.

Um dos primeiros livros a dividir o cyberbullying em diferentes acções, delineando-os em tipos ou comportamentos distintos foi o “Cyberbullying and Cyberthreats” (2006) da advogada norte americana, Nancy Willard, na altura Directora do Center for Safe and Responsible Internet Use (E.U.A.). Não existindo nenhuma alteração a esta lista e sua definição desde essa data, são estes os seguintes tipos ou comportamentos dentro do cyberbullying:

A Discussão directa, “Flaming”.

O “flaming”, não é mais de que uma discussão curta, mas acesa, utilizando tecnologias de comunicação, entre dois ou mais intervenientes num fórum, grupos de discussão ou chat publico. Raramente acontece via e-mail ou outra forma directa de contacto.

A primeira impressão é de que os intervenientes encontram-se em pé de igualdade na discussão, mas ao existir um acto ou discurso agressivamente violento por parte de um dos protagonistas, incorre-se num desequilíbrio de forças, que em muitas situações onde se encontram mais indivíduos, que em principio são somente observadores, podem tomar partido do agressor. O ataque deixa de ser bilateral e suportável e para a ser entre um grupo e uma vítima. É um acto de curta duração, não ultrapassando o momento do jogo ou discussão em que se encontram os protagonistas.

O Molestar ou assédio, “harassment”.

Este termo é também uma das designações para cyberbullying, podendo ser distinguido deste pela idade dos intervenientes, sendo o “harassment” protagonizado por adultos e cyberbullying por jovens.

O uso de palavra, conduta ou acção, repetida e persistente, que é utilizada directamente contra uma pessoa, aquém irrita, alarma ou perturba emocionalmente o alvo, provocando stress, é a definição mais abrangente encontrada. No cyberbullying esta acção é vista geralmente como uma maneira de ataques que envolve quase unicamente mensagens ofensivas e repetidas contar um único alvo.

Na maioria das vezes esta acção é produzida utilizando meios de comunicação pessoais, mas também podem ser produzidas em espaços virtuais públicos, em que podem produzir um maior efeito já que a vitima está a ser observada. À primeira vista pode parecer igual ao “flaming” mas não o é porque: o “harassment” tem um maior período de duração, pode existir mais do que um agressor e os insultos são unilaterais.

Em vários livros, textos e sítios da internet dedicados ao cyberbullying, é comum atribuir-se este termo, quase em exclusivo, aos jogos de computador online. Nestes jogos existem jogadores que têm como objectivo molestar outros, os “griefer” ou como tradução livre, “provocadores de tristeza”. Estes preocupam-se mais em perturbar do que em jogar. Existem relatos de que os “griefers”, ultrapassam as fronteiras do jogo e continuam os actos por outras vias e noutros contextos, mas sempre com as mesmas vítima.

– O Denegrir/ Calunia/ Difamação.

Denegrir é difundir online, e nas mais variadas plataformas, comentários, fotos, imagens adulteradas, cartoons, musicas, etc., depreciativos e irreais sobre a vitima. Estes comentários podem ser enviados por e-mail, colocados em blogs, sites ou fóruns. Podem ter o objectivo de ser pouco difundido e chegar somente a grupo restrito de pessoas, ou fazer espalhar quanto mais melhor e o mais rápido possível.

Nos Estados Unidos da América existe um costume em algumas escolas e turmas de fazer um “slam book”, que não é mais do que um álbum da turma com as respectivas fotos, onde cada um pode denegrir os colegas como bem lhe quiser. Normalmente estes “slam book´s” iniciam com comentários suaves, mas à medida que os comentários vão sendo colocados as intenções de magoar vão também aumentando.

Roubo de identidade. Impersonalização.

Este é um dos exemplos dos tipos de cyberbullying que só podem acontecer com as novas tecnologias de informação.

Consiste no perpetrador apossar-se da identidade digital da vitima, roubando-lhe as palavras-chave de acesso às varias plataformas de comunicação. Ao personificar a entidade da vítima pode maltratar os amigos desta, enviar e-mails difamatórios, mudar os perfis nas páginas pessoais, desde dados a imagens, e por ultimo pode colocar a vida da vitima em risco, enviando mensagens provocantes e ofensivas a grupos violentos que conheçam a mesma.

A vitima é alvo de ofensas, perde amigos, pode ser agredida e sem perceber o porquê… e mesmo que perceba atempadamente o que se passa é sempre a sua assinatura que marca as ofensas, o que será sempre difícil de explicar perante os ofendidos.

Em casos informáticos mais avançados, o bully além de utilizar as palavras-chave da vítima chega mesmo a utilizar o computador da vitima, fazendo com que a identificação, IP, seja mais uma prova de que foi esta a enviar as mensagens nas mais variadas formas

Enganar/ trapaça

O objectivo principal é enganar a vítima, tentando com que esta forneça dados pessoais ao bully, fotografias suas ou outras, de maneira que depois utilize essa informação pessoal e/ou intima e a divulgue descontextualizada e não autorizada a outros. Estas informações normalmente são de cariz privado e não deveriam ser divulgadas. A vítima é agredida duplamente primeiro porque é enganada e segundo porque vê exposta a sua vida privada e como foi com a sua colaboração activa sente-se ainda mais vulnerável.

Ostracismo / exclusão

Uma das necessidades básicas humanas é pertencer a um grupo, através deste encontramos amigos e estratos sociais que ambicionamos. A exclusão de um membro de um determinado grupo é encarada pelo membro excluído como a sua “ morte social”. Este sentimento é igual no mundo real e no mundo virtual.

O ostracismo virtual tem duas variantes: o sentimento de ostracismo auto-infligido, que se baseia na ausência ou na demora de respostas às solicitações do individuo. A velocidade de comunicação é um facto adquirido por quem utiliza as tecnologias de informação e comunicação, se esta é lenta ou não envia resposta, assume-se que é uma “não resposta” do indivíduo ou do grupo a quem enviamos a nossa mensagem, e não do sistema de comunicações. Esta assumpção de estarmos a ser colocados fora do grupo é tão rápida como a da comunicação. Assumimos que estamos a ser ignorados, logo fora do grupo social.

A outra variante é a que carrega maldade na acção, o ser excluído propositadamente de um grupo. Aqui existem vários motivos: o indivíduo não tem as características necessárias ao perfil de membro de grupo; não serve os interesses do grupo; é demasiado brando na sua integração ou por ultimo tem algum conflito anterior, com membro ou membros do grupo que se encontram numa posição “hierárquica” superior dentro deste.

As vitimas ficam psicologicamente devastadas, mas por mais estranho que possa parecer estas vitimas rapidamente procuram outro grupo social para se inserirem, muito mais rapidamente do que os que deixam o grupo voluntariamente.

Pressão constante, cyberstalking.

O acto de perseguir electronicamente outro, constante e sub-repticiamente, ou o delito de perseguir ou “passear” perto da vitima, muitas vezes sub-repticiamente, com o objectivo de irritar, molestar a pessoa ou cometer um crime, tais como assalto, agressão física ou violação.

Difere do “harassment” pela perseguição constante e com objectivos de provocar danos físicos à vítima. É um dos tipos de cyberbullying que mais pânico na incute na vitima, as ameaças são constantes, aparecem em todas as vias de comunicação e tem sempre uma conotação de terror ligadas à agressão física.

A chapada ou “ happy slaping”

Este método é relativamente recente e aparece pela primeira vez no metro de Londres e rapidamente se difundiu nos E.U.A. e Canadá.” A chapada” consiste num grupo de adolescentes que perseguindo uma vitima (que à partida conhecem), que se encontre normalmente sozinha, a agride com uma chapada à traição (normalmente na cabeça ou pescoço) enquanto outro ou outros do grupo filmam a sequência. O filme é depois divulgado na internet, de maneira a ser visualizado pelos pares da vítima, denegrindo a sua imagem. Nos E.U.A. existem variações da “chapada”, sendo a mais usual e perigosa o “hopping” ou assalto, difere da chapada porque não é perpetrada por um só indivíduo mas pelo grupo inteiro, que repentina e violentamente agride a vítima.

Em qualquer dos métodos nunca é filmada a resposta positiva da vítima, somente existe filmagem da vítima a chorar ou a fugir, nunca quando esta responde da mesma forma agredindo quem a molestou, ficando registado unicamente o seu papel de vítima e não de indivíduo capaz de responder. A mensagem é transmitida como se a vítima fosse sempre um cobarde. Normalmente, as vitimas que não responderam à agressão, são repetidamente agredidas

“Sexting”, divulgação de imagens digitais não permitidas.

Este é um acto que já provocou reacções legais, o fotografar sem consentimento e depois divulgar, imagens de pessoas em situações, que descontextualizadas, podem e são interpretadas maliciosamente. Este tipo de cyberbullying não visa ninguém em especial, simplesmente acontece a alguém que teve, podemos dizer, no lugar errado à hora errada com a atitude ou indumentária errada. As reacções legais traduziram-se na proibição de telemóveis com máquina fotográfica e máquinas fotográficas digitais, em espaços onde a nudez ou a nudez parcial seja comum, como exemplos podemos referir as piscinas públicas, balneários ou ainda o exemplo das praias de naturismo.

Neste mesmo contexto existe a filmagem de actos sexuais, que podem ser consentidos ou não, e a sua posterior divulgação no meio onde se pode ser reconhecido. O voyeurismo natural do ser humano faz com que seja visualizado e difundido muito rapidamente. A divulgação deste tipo de vídeos é feita via e-mail, já que as plataformas gratuitas de divulgação de imagens não permitem este tipo de conteúdos. A vítima é normalmente do sexo feminino, já que lhe é atribuída uma conotação de “ mulher fácil” enquanto o rapaz é conotado como “macho”.

A divulgação destas filmagens tem maiores repercussões, em termos psicológicos, quando são visualizadas pelos pais da protagonista feminina.

O “Outing”.

O “outing” não é mais do que “sexting” provocado, induzido ou permitido pela vítima. Esta ultima publica ou envia fotos/ filmes que a podem comprometer. Normalmente estas imagens/ filmes são de cariz sexual, erótico ou de possível alvo de gozo (filmar-se a fazer de palhaço e depois divulgar online, é “abrir um flanco” para possíveis ataques.)

O “outing” pode ser inocentemente executado, ou com intenção de chamar a atenção sobre si… conseguindo esse mesmo objectivo, com o pior resultado pessoal possível. Neste caso a máxima “ Falem bem, falem mal, falem de mim” é enganadora e prejudicial.

A luta. “Figth”

Têm sido divulgado pelos media portugueses (não encontrámos exemplos noutras realidades), de vídeos amadores, normalmente produzidos por câmaras de telemóveis, de lutas entre adolescentes, com alguma incidência nas lutas entre jovens do sexo feminino. Como professor, já observei o incitamento eufórico a realização de uma luta ou “fight” por parte de alunos que rodeiam dois adversários, e que se percebe que pretendem filmar a acção por terem o telemóvel pré-preparado para a situação. A divulgação é executada através de plataformas de divulgação de vídeos anónimas ou enviadas e reenviadas por e-mail. A vítima em todo o caso será quem perder a luta, podendo ser depois alvo demais acções de bullying.

As diferenças entre o Bullying e a vertente Cyberbullying

Como já se referiu, o cyberbullying tem duas variantes: ou é uma extensão do bullying convencional utilizando novas tecnologias ou utiliza esta mesmas tecnologias inventado novas formas de agressão. Independentemente destas variações existem factores distintos entre o cyberbullying e o bullying que pode fazer uma grande diferença nos resultados psicológicos e sociais das vítimas.

Quem é o inimigo?

Enquanto no bullying, dito convencional, se têm conhecimento de quem é a vítima e o agressor, estes conseguem-se identificar entre eles. O agressor é identificado e passível de ser evitado. No cyberbullying o agressor pode ser qualquer um ao nosso redor, podendo ser um indivíduo que se encontra perto ou longe de da vítima, como alguém que podemos conhecer ou não. O factor de desconhecimento de quem é o agressor, amplia exponencialmente a pressão psicológica e o medo.

Limites espaciais

O bullying é perpetrado dentro e em redor do espaço escolar, o cyberbullying não tem delimitação espacial. O cyberbullying “acompanha” a vítima. Esta só consegue ver-se livre da agressão, isolando-se tanto da comunidade como das tecnologias, computador e telemóvel. A expressão inserida no inicio deste capitulo expressa bem o sentimento da vitima em relação ao cyberbullying, “ you can run, but you can´t hide”. A não existência de um “porto seguro”, é mais um motivo de stress para a vítima, esta tem a sensação de estar constantemente a ser observada e controlada pelo agressor.

Características dos agressores

No bullying o agressor é considerado um indivíduo com boa capacidade física, fisicamente e emocionalmente agressivo, com uma má relação com a escola. No cyberbullying, não existe nenhuma referência à capacidade física, dado que esta não é necessária para agressão psicológica, os bullies neste caso são bons alunos e com uma boa relação com a escola. Os agressores no cyberbullying podem ser simultaneamente vítimas. São dependentes das tecnologias.

O medo de punição da vítima

Uma das medidas que os pais das vitimas do cyberbullying tendem a fazer, assim que são confrontados com os “perigos” que o seu educando está a ser alvo, é o retirar a este o acesso aos veículos da agressão, telemóvel, computador e internet. Esta atitude castiga ainda mais a vitima, fazendo com que se arrependa de ter contado o que se passava consigo. É castigado duplamente. A vítima no bullying convencional é protegida, afastando-se do agressor.

Os observadores ou testemunhas

No cyberbullying, o observador pode escolher entre ser ou não participante. É muita das vezes também um bully, dependendo da plataforma na qual a acção decorre, pode intervir se for num “chat”, pode reencaminhar o e-mail difamatório ampliando a quantidade de observadores, em suma, o observador inicial pode transformar-se num agressor de segunda linha, ampliando ou perpetuando o ataque inicial. No bullying, o observador têm um papel mais passivo. Fazendo de publico de um acto, aumenta a vergonha e a humilhação da vitima ( quantos observadores maior a humilhação) e amplia a “glória” do agressor, servindo-lhe de audiência, que se mantiver somente como assistente do acto é tida como apoiante do acto por parte do agressor. “Quem cala, consente”.

Podemos assim concluir que o cyberbullying é uma vertente do bullying em franca expansão, com contornos sociais diferentes, implicações psicológicas e sociais devastadoras e por ultimo com um impacto directo no ambiente escolar onde é perpetrado. Estas conclusões podem ser ainda sustentadas pelo capítulo seguinte, onde se percebe que existe uma alteração da Lei criminal, à escala mundial, na tentativa de responder a esta ameaça, o cyberbullying.


 

Autor: Professor Dr. Pedro Ventura

Doutorado pela Universidade de Granada em Ciências da Educação

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Fundador da Leak, estreou-se no online em 1999 quando criou a CDRW.co.pt. Deu os primeiros passos no mundo da tecnologia com o Spectrum 48K e nunca mais largou os computadores. É viciado em telemóveis, tablets e gadgets.

1 Comentário

1 Comment

  1. Sérgio Dias

    30 Maio, 2012 at 8:45

    Apesar de extenso, gostei muito do texto. Serve para me preparar mais um pouco para a educação dos meus filhos.

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