Se andas nas redes sociais, já os viste: posts a garantir que a guerra na Europa é iminente, que “a UE já avisou” para nos prepararmos para a Terceira Guerra Mundial, muitas vezes de contas que nunca tinhas visto, com nomes ou fotografias que não parecem reais. A sensação de que algo terrível está prestes a acontecer espalha-se depressa.
Antes de partilhares o próximo, vale a pena parar e fazer duas perguntas: quem está por trás destas contas, e o que ganham com isto? A resposta é mais reveladora do que o próprio conteúdo e conhecê-la é a melhor defesa que tens.
Primeiro: o medo é o conteúdo mais viral que existe
Há uma razão técnica para o pânico se espalhar mais do que a calma. Os conteúdos que provocam emoções fortes, medo, indignação, alarme, geram muito mais partilhas, comentários e reações do que os conteúdos equilibrados. E as redes sociais são construídas para dar mais alcance ao que gera mais reação.

Ou seja, um post que diz “vem aí a guerra” viaja muito mais longe do que um que diz “a situação é tensa mas está sob controlo”. Quem quer alcance aprendeu isto há muito. O alarme não é um efeito secundário: muitas vezes é a estratégia.
Motivo 1: dinheiro
O mais comum é também o mais simples. Muitas destas contas praticam o que se chama engagement farming, cultivo de interação. O objetivo não é informar-te, é fazer-te reagir.
Funciona assim: quanto mais visualizações, partilhas e comentários uma conta gera, mais dinheiro pode render através dos programas de monetização das plataformas, que pagam a criadores com base no alcance. O pânico é combustível barato para isso. Uma conta que publica alarmes de guerra em catadupa não está necessariamente preocupada com a guerra, está a encher o contador de visualizações.
Outras contas seguem uma variante: inflam seguidores com conteúdo alarmista para depois vender a conta já crescida, ou para a reconverter noutra coisa qualquer, como publicidade ou promoção de produtos.
Motivo 2: operações de influência com origem estrangeira
Esta é a parte mais séria, e está documentada oficialmente. Não é teoria da conspiração: é o objeto de trabalho do Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE), o braço diplomático da União Europeia, que publica relatórios anuais sobre aquilo a que chama Manipulação e Interferência de Informação Estrangeira (FIMI, na sigla inglesa).

Segundo o SEAE, estas campanhas não são posts soltos: funcionam como uma rede coordenada de canais digitais, com centros regionais dirigidos a geografias específicas. O ano de 2025 foi considerado um ponto de viragem no esforço da UE para as combater, ao ponto de ter sido criado um centro dedicado a acelerar a resposta a estas ameaças.
Os processos eleitorais têm sido um alvo preferencial. Em 2025, várias campanhas visaram eleições em países europeus como a Alemanha, a Polónia, a Roménia, a Moldávia e a Chéquia. O objetivo destas operações não é apenas enganar sobre um facto concreto, é alimentar uma sensação difusa de caos, divisão e medo, minando a confiança das pessoas nas suas próprias instituições.
Faz sentido do ponto de vista de quem as promove. Uma população convencida de que a guerra é inevitável e de que nada a pode travar é uma população mais dividida, mais desconfiada e menos coesa. O medo desmobiliza.
Motivo 3: ideologia e puro caos
Nem tudo é dinheiro ou geopolítica. Há quem espalhe estas mensagens por convicção genuína, por acreditar mesmo no que partilha. E há quem o faça apenas pelo gozo de ver a reação, o chamado trolling, semear confusão só porque sim.
O efeito, para ti que lês, é o mesmo: um alarme que não corresponde à realidade e que te rouba tranquilidade sem fundamento.
Como reconhecer uma conta destas
Não precisas de ser especialista. Há sinais que se repetem:
- Perfil vago ou recente, sem histórico, com foto genérica ou aparentemente gerada por computador
- Só publica alarme: o feed é uma sucessão de catástrofes iminentes, sem nuance nem contexto
- Linguagem de urgência extrema: “URGENTE”, “eles não querem que saibas”, “partilha antes que apaguem”
- Fontes que não existem: cita “a UE”, “especialistas” ou “fontes militares” sem nunca ligar a um documento ou nome verificável
- Pede partilha, não reflexão: quer que reajas depressa, não que penses

O que fazer
A defesa é simples e está toda do teu lado:
- Não partilhes por impulso. O alarme quer velocidade. Abranda.
- Procura a fonte original. Se “a UE avisou”, tem de haver um comunicado oficial. Se não o encontras, desconfia.
- Confia em fontes estabelecidas. Órgãos de comunicação com nome, autor e responsabilidade editorial respondem pelo que publicam. Uma conta anónima não.
- Denuncia e segue em frente. Reportar a conta faz mais do que discutir com ela nos comentários — a discussão só lhe dá o alcance que ela procura.






