Depois de um verão que teima em não acabar, entramos no outono em plena onda de calor, a pergunta que muita gente faz é inevitável: como vai ser o inverno? Vai ser frio? Vai chover tanto como no ano passado? Nevar? Já há os primeiros sinais dos modelos meteorológicos e um fenómeno que pode ser o mais forte de sempre a pesar nas contas. Explicamos o que já se sabe (e o que ainda é impossível prever).
O sinal mais claro: vai ser mais quente do que o normal
É a conclusão em que quase todos os modelos concordam. A previsão sazonal oficial do IPMA (publicada a 17 de setembro) aponta para uma temperatura média acima do normal em Portugal continental até ao final do ano, um outubro, novembro e dezembro mais quentes do que é habitual para a época.

Em concreto, o sinal é de temperaturas entre +0,5 e +1,5 °C acima da média, com as maiores anomalias no interior. E isto coincide com a previsão europeia do Copernicus, que aponta para um inverno ameno em quase toda a Europa, com temperaturas acima da média em dezembro, janeiro e fevereiro.
Mas atenção a um mal-entendido comum: uma média mais alta não significa que não vá haver frio. Pode perfeitamente haver uma vaga de frio intensa de vários dias em janeiro e, ainda assim, o mês terminar com uma média acima do normal. “Mais quente em média” não é o mesmo que “sem frio”.
E a chuva? Aqui a certeza é muito menor
Na chuva, os modelos são bem menos fiáveis. Ainda assim, o IPMA prevê para o Norte e Centro uma anomalia positiva de precipitação (mais chuva do que o normal) em novembro e dezembro. Os modelos europeus também apontam para um inverno húmido em boa parte do continente.

O problema é que Portugal fica mesmo na fronteira desse sinal de chuva e, aqui, pequenas diferenças fazem toda a diferença. Basta a “estrada” das depressões atlânticas (o chamado storm track) descer uns quilómetros para o país levar com sucessivas tempestades, ou subir um pouco para ficarmos sob o sol do anticiclone. É essa rota que ainda não é possível prever com antecedência.
Vai repetir-se o “inverno das tempestades” do ano passado?
É a pergunta na cabeça de muita gente, depois do inverno passado, marcado pela água e pelas tempestades. E a resposta honesta dos especialistas é: é impossível saber já. Como explica a investigadora Rita Cardoso (do Instituto Dom Luiz) ao jornal Observador o que aconteceu no ano passado foi “um fenómeno isolado” pode repetir-se, mas “é impossível dizer” a esta distância.
Aliás, a mesma investigadora deixa um aviso de humildade científica: as previsões sazonais não funcionam bem para Portugal. “O modelo não é capaz de representar o nosso clima com tanta antecedência”, explica, pela posição do país, a fiabilidade a mais de um mês é muito fraca. Ou seja: convém levar todos estes “sinais” com pinça.
O fator “recorde”: o El Niño mais forte de sempre
Há um fenómeno em que os modelos não têm dúvidas: o El Niño (o aquecimento anormal do Oceano Pacífico) está a intensificar-se e pode tornar-se o mais forte desde que há registos (1950). A agência norte-americana NOAA dá mais de 90% de probabilidade de ser um evento “muito forte” neste inverno.

Mas e este é o ponto crucial para não gerar alarmismo, o El Niño não tem uma influência direta em Portugal. Como resume Rita Cardoso, “o El Niño vai fazer aquecer o planeta o ano inteiro, mas com Portugal não tem nenhuma relação direta”. Vai causar impactos sérios noutras regiões (América do Norte, África, o Pacífico), mas na Europa ocidental a sua influência é indireta e ténue. O que manda mesmo no nosso tempo é a circulação do Atlântico Norte.
Em resumo
- Temperatura: provavelmente acima do normal (mais quente), é o sinal mais fiável.
- Chuva: possivelmente mais no Norte e Centro, mas com muita incerteza (Portugal está na fronteira do sinal).
- Tempestades como as do ano passado: impossível saber já.
- Neve: sem sinal fiável a esta distância.
No fundo, o retrato para já é o de um inverno tendencialmente ameno, com o resto ainda em aberto. À medida que dezembro se aproxima, os modelos ganham fiabilidade e aí sim será possível dizer mais. Por agora, uma coisa é certa: entramos no outono com calor, e o verdadeiro inverno ainda vai demorar a mostrar-se.








