Como são feitas as sondagens hoje em dia?

As sondagens continuam a ser um dos instrumentos mais citados em períodos eleitorais, mas também um dos mais desconfiados. Especialmente depois das últimas eleições, que têm aparecido com resultados bastante diferentes face aos esperados.

É por isso que nos dias que correm basta aparecer um gráfico na televisão para surgirem logo comentários do género “isto é tudo inventado” ou “ligaram para meia dúzia de pessoas e já está”.

A verdade, como quase sempre, está algures no meio.

Sondagens? Não, não é ligar para 1.000 pessoas ao calhas e ver quem atende

Se calhar tens a ideia de que uma sondagem é feita ligando para cerca de 1.000 pessoas, onde metade não atende e outra parte responde qualquer coisa apenas e só para despachar, é uma simplificação extrema.

Percebe-se de onde vem, mas não corresponde ao processo real usado pelas empresas de estudos de opinião minimamente credíveis.

Uma sondagem começa muito antes do primeiro telefonema. Isto porque existe uma amostra definida, construída para representar o eleitorado real do país, tendo em conta variáveis como idade, sexo, região, nível de escolaridade e, nalguns casos, histórico de voto. Não é, quase nunca, um saco de números aleatórios.

Ou seja, quando uma empresa diz que a sondagem tem 1.000 entrevistas válidas, isso significa precisamente isso: 1.000 respostas completas e aproveitáveis, não 1.000 chamadas feitas.

Quantas pessoas são contactadas para chegar a essas 1.000 respostas?

Aqui é que entra a parte que raramente é explicada na televisão.

Para obter 1.000 entrevistas válidas, é perfeitamente normal que seja necessário contactar 3.000, 4.000 ou até mais pessoas. Há recusas, chamadas não atendidas, números inválidos e pessoas que desligam a meio. Isto é conhecido como taxa de resposta, e tem vindo a cair ao longo dos anos, sobretudo com o desaparecimento do telefone fixo e a saturação de chamadas comerciais.

As pessoas já não têm paciência para chamadas aleatórias. Aliás, posso dizer que já me ligaram para sondagens, e eu… Bem… Desliguei.

Ou seja, hoje, uma taxa de resposta de 20% já é considerada aceitável. Em alguns estudos é ainda mais baixa.

Telefones fixos, telemóveis e o mito dos “velhos em casa”

Durante muitos anos, as sondagens eram feitas quase exclusivamente através de telefones fixos, o que criava enviesamentos óbvios. Pessoas mais velhas, reformados ou quem estivesse em casa durante o dia ficavam sobre-representados.

Atualmente, as empresas sérias usam amostras mistas, com contactos para números móveis e fixos, e chamadas feitas em diferentes horários, incluindo fins de tarde e noites. Algumas sondagens incluem também painéis online, embora estes tragam outros desafios metodológicos.

Ainda assim, nenhum método é perfeito. Há grupos que continuam a responder menos do que outros. Isso não invalida automaticamente a sondagem, mas obriga a correções estatísticas posteriores.

O que são as ponderações e porque é que elas existem?

Depois de recolhidas as respostas, os dados raramente são usados “em bruto”.

Entram aqui as ponderações. Ou seja, um ajuste estatístico que serve para alinhar a amostra com a realidade do eleitorado.

Se, por exemplo, responderam mais homens do que mulheres, ou mais pessoas de uma determinada região, esses dados são corrigidos para evitar distorções. É um procedimento normal, transparente e descrito nos relatórios técnicos que quase ninguém lê.

Margem de erro?

Uma sondagem com 1.000 entrevistas tem, regra geral, uma margem de erro a rondar os 3%. Isto significa que diferenças pequenas entre partidos podem não ser estatisticamente significativas, mesmo que os gráficos pareçam muito claros.

Quando vês dois partidos separados por 1% ou 2%, a leitura correta não é “este vai ganhar”, mas sim “estão tecnicamente empatados”. O problema é que esta nuance raramente passa para os títulos.

Então as sondagens são inúteis?

Não. Mas também não são bolas de cristal.

As sondagens medem intenções de voto num momento específico, não resultados finais.

Podem falhar. Já falharam, e vão continuar a falhar. Mas quando lidas com tendências ao longo do tempo, e não com uma sondagem isolada, continuam a ser uma ferramenta útil para perceber movimentos no eleitorado.

O verdadeiro problema não está (só) na sondagem.

Gráficos simplificados, falta de contexto, ausência de explicações sobre margens de erro e uma obsessão mediática com quem “vai à frente” transformam um instrumento estatístico num espetáculo.

Por vezes, fica até a ideia de que as sondagens servem para influenciar resultados, e de facto podem ter esse poder. É uma discussão antiga e legítima. Mas não invalida o método em si.

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Nuno Miguel Oliveira
Nuno Miguel Oliveirahttps://www.facebook.com/theGeekDomz/
Desde muito novo que me interessei por computadores e tecnologia no geral, fui sempre aquele membro da família que servia como técnico ou reparador de tudo e alguma coisa (de borla). Agora tenho acesso a tudo o que é novo e incrível neste mundo 'tech'. Valeu a pena!

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