Abres as notícias económicas e vês o barril de petróleo Brent a rondar os 91 dólares. Para quem anda atento aos mercados, parece um valor quase aceitável, tendo em conta as guerras e as tensões internacionais dos últimos tempos. Aliás, ficas logo com vontade de reclamar com alguém, visto que os preços dos combustíveis em Portugal estão novamente a roçar no exagero.
Mas se achas que isso significa que os combustíveis vão acalmar nas bombas em Portugal, estás redondamente enganado. Estamos a olhar todos para o ponteiro errado.
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Quem veio meter o dedo na ferida com toda a força foi Jeff Currie, um dos analistas de energia mais conceituados do mundo. A mensagem dele numa entrevista à CNBC foi tão simples quanto brutal: ninguém no planeta consome petróleo bruto diretamente. O que nós, as empresas, os camiões e os aviões consumimos é combustível refinado. E aí o cenário não é feio… É assustador.
O barril a 90$ é uma ilusão enquanto o gasóleo bate nos 170$

Portanto, durante décadas, o preço do petróleo bruto serviu de barómetro fiel para o que íamos pagar nos postos de abastecimento. Ou seja, se o crude subia, o gasóleo e a gasolina subiam atrás. Se descia, os combustíveis aliviavam.
Mas, essa regra clássica pura e simplesmente partiu-se.
Assim, enquanto o Brent negoceia nos 91 dólares, o gasóleo no mercado europeu já está a ser transacionado perto dos 170 dólares por barril. Ou seja, praticamente o dobro do valor do petróleo bruto.
Porquê? Bem, há mais de 100 milhões de barris de crude retidos ou com problemas de escoamento no Estreito de Ormuz, e a China decidiu cortar na produção das suas refinarias. Ao fazer isso, o preço do crude até parece controlado à superfície, mas a oferta de combustível pronto a usar encolheu drasticamente.
A fatura invisível que vai encarecer tudo nos supermercados!
Os governos bem podem tentar disfarçar a situação com discursos de controlo ou libertações pontuais de reservas estratégicas para acalmar os investidores na bolsa. Mas o mundo real da economia não vive de gráficos bonitos.
Nos últimos doze meses, a gasolina subiu cerca de 30%, mas o gasóleo já disparou uns brutais 46%. E aqui está a verdadeira razão para nos preocuparmos a sério. Afinal de contas, o gasóleo não serve apenas para abastecer o carro do dia a dia. É o motor de toda a cadeia logística mundial:
- Transporte de mercadorias e camiões: Tudo o que chega aos supermercados e às lojas viaja sobre rodas a queimar gasóleo.
- Máquinas industriais e agricultura: Do campo às fábricas, o custo operacional dispara de imediato.
- Navios e transporte marítimo: Fatura de frete mais cara que acaba sempre repassada para o consumidor final.
A tempestade perfeita para a inflação!
As refinarias vão tentar correr atrás do prejuízo para aumentar a produção e aproveitar as margens astronómicas que este desequilíbrio cria, mas isso não se resolve de um dia para o outro. Até lá, olhar para o petróleo a 91 dólares e pensar que está tudo controlado é viver numa realidade paralela.







