Os robôs humanoides chineses já conseguem correr, saltar, dançar e recuperar de algumas quedas. Agora, instituições ligadas ao Exército Popular de Libertação estão a estudar como estas máquinas poderão ser utilizadas em futuras operações militares.
Uma investigação da Reuters, publicada a 7 de setembro de 2026, analisou mais de 100 documentos chineses. Entre estes encontram-se concursos públicos, estudos académicos, patentes, publicações militares, registos governamentais e materiais de empresas de defesa.
Os documentos revelam um interesse crescente em robôs capazes de realizar reconhecimento, patrulhamento, transporte de material e missões em locais perigosos. Alguns dos cenários mais ambiciosos envolvem a entrada em edifícios, túneis e outras zonas urbanas antes dos soldados.
Isso não significa que a China já tenha um exército de robôs humanoides. A investigação não encontrou provas de um robô humanoide armado integrado numa unidade militar operacional.
Robôs estudados para entrar em edifícios
Um dos cenários mais reveladores aparece num estudo publicado em agosto de 2025 por investigadores da Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa da China.
O exercício imaginava seis robôs de combate divididos por duas equipas de assalto. O grupo poderia combinar humanoides, cães robóticos e veículos autónomos, trabalhando em conjunto com soldados para limpar um edifício ocupado.

Os robôs avançariam andar por andar e divisão por divisão. Poderiam observar o interior, produzir mapas, identificar obstáculos e reduzir a necessidade de expor imediatamente os militares humanos.
Contudo, o estudo não explicava quais seriam as regras de utilização de força, que armas transportariam ou como distinguiriam um combatente de um civil. O equipamento descrito também era uma projeção do que poderá tornar-se possível dentro de cinco a dez anos, não uma força atualmente disponível.
Outro exercício realizado em 2025 simulou a infiltração de robôs atrás das linhas inimigas. As máquinas teriam de entrar numa área, mapear o espaço e localizar alvos.
Estas experiências ajudam a perceber onde está o verdadeiro interesse militar. Não se trata apenas de construir um robô que caminhe como uma pessoa. É necessário dar-lhe sensores, capacidade de orientação e ferramentas para manipular objetos em ambientes imprevisíveis.
Porque utilizar um robô com duas pernas?
Um robô humanoide tem uma vantagem teórica: os edifícios e equipamentos humanos foram construídos para pessoas.
Escadas, portas, corredores estreitos, ferramentas, veículos e comandos manuais pressupõem normalmente duas pernas, dois braços e mãos capazes de agarrar objetos. Um humanoide suficientemente competente poderia movimentar-se nestes espaços sem exigir a reconstrução completa do ambiente.
Esta flexibilidade também é a principal fonte de complexidade. Manter o equilíbrio enquanto sobe escadas, transporta peso ou atravessa destroços exige muito mais processamento e energia do que fazer deslocar um veículo com rodas.
Para reconhecimento simples ou transporte de carga, um robô quadrúpede, com lagartas ou rodas poderá continuar a ser mais barato, estável e fácil de reparar.
Os humanoides apenas farão sentido quando a forma humana proporcionar uma vantagem real.
China já está a comprar equipamento
O interesse não se limita a estudos académicos. Em maio de 2025, o Exército chinês publicou um concurso para a aquisição de um robô humanoide, incluindo instalação e formação técnica.
Meses depois, outro anúncio procurava um sistema de perceção inteligente e manipulação para humanoides. Em junho de 2026, foi reservado um orçamento de aproximadamente 300 mil dólares para recolher e classificar dados de câmaras, radares e movimento.
Estes dados são essenciais para ensinar uma máquina a reconhecer o terreno, identificar objetos e escolher movimentos adequados.
A investigação não conseguiu confirmar se todos os concursos foram concluídos, que empresas ficaram com os contratos ou quais os modelos fornecidos.
Existe também o Fuxi, um humanoide produzido pela Norinco, um conglomerado estatal chinês ligado à defesa. A empresa apresenta-o como adequado para reconhecimento, vigilância, patrulhamento e tarefas perigosas.
O Fuxi pode-se controlar remotamente por um operador. Esta solução reduz a necessidade de o robô tomar todas as decisões sozinho, embora continue a depender de comunicações rápidas e resistentes a interferências.
Ainda existem limitações enormes
As demonstrações públicas podem criar uma imagem enganadora. Um robô que dança num palco preparado não enfrenta chuva, lama, fumo, destroços, interferências ou pessoas que se movimentam de forma imprevisível.
Os humanoides atuais continuam a consumir muita energia. Uma bateria descarregada ao fim de pouco tempo limita bastante a sua utilidade numa operação prolongada.
As quedas também são um problema. Um humano consegue normalmente recuperar e continuar a missão. Um robô pesado poderá danificar motores, sensores ou articulações e necessitar de assistência técnica especializada.
Existe ainda a questão da inteligência. Reconhecer uma porta num laboratório é muito diferente de perceber se alguém que aparece inesperadamente num edifício representa uma ameaça.
Uma decisão errada num cenário militar pode matar civis ou forças aliadas.
Quem decide quando o robô pode disparar?
A China afirma oficialmente que os seres humanos devem manter o controlo sobre os sistemas de armas e assumir a responsabilidade final pelas decisões.
Esta posição não elimina as dúvidas provocadas pelos documentos. Um sistema controlado remotamente pode, com futuras atualizações, receber níveis crescentes de autonomia. Além disso, as comunicações podem falhar ou bloquearem-se durante uma operação.
Será necessário definir quem autoriza a utilização da força, como são confirmados os alvos e quem responde quando o sistema comete um erro.
Estas questões também afetam Portugal e os restantes países europeus. A evolução das armas autónomas terá consequências para a NATO, para o direito internacional humanitário e para futuras negociações sobre sistemas capazes de selecionar ou atacar alvos.
Ainda não existem “soldados robóticos”
O desenvolvimento chinês é relevante, mas deve-se separar das imagens de ficção científica.
A China está a investigar robôs humanoides para possíveis missões militares, a comprar componentes e a simular cenários de utilização. Não está confirmado que tenha colocado humanoides armados em unidades operacionais.
A própria indústria ainda precisa de resolver problemas de autonomia, fiabilidade, controlo e custo. Durante os próximos anos, os robôs deverão ser mais úteis em tarefas controladas, perigosas ou repetitivas do que como substitutos completos dos soldados.
A verdadeira mudança poderá começar de forma menos espetacular: um robô que transporta equipamento, inspeciona um túnel ou entra primeiro num edifício pode alterar uma operação mesmo sem disparar uma única arma.








