Imagina entrar num avião sem o habitual “tubo” com corredor ao meio e janelas dos dois lados, mas sim numa espécie de asa gigante, larga e achatada, com espaço para mais de 800 pessoas. É este o conceito radical de avião de passageiros que a China está a testar. Entretanto tem dado que falar pela sua forma invulgar, mais parecida com um bombardeiro furtivo do que com um avião comercial. Mas convém perceber bem o que já existe (e o que ainda é só ideia).
Um avião em forma de asa
O projeto vem do Centro de Investigação e Desenvolvimento Aerodinâmico da China (CARDC). Baseia-se numa configuração chamada Blended Wing Body (BWB), ou “corpo de asa integrada”. Em vez de separar a fuselagem (onde vão os passageiros) das asas, esta arquitetura funde tudo numa única superfície contínua, o avião inteiro é, no fundo, uma grande asa.

A vantagem é aerodinâmica: com uma superfície tão ampla a gerar sustentação e menos “arrasto” (a resistência do ar), este tipo de avião promete ser mais eficiente e gastar menos combustível do que os aviões convencionais a transportar o mesmo número de pessoas. É um formato que os engenheiros estudam há décadas — e que muita gente reconhece do bombardeiro B-2 americano, com a sua silhueta de asa voadora.
Dimensões colossais
Os números do conceito são impressionantes. A versão à escala real teria cerca de 43 metros de comprimento mas uns extraordinários 85 metros de envergadura (a distância de ponta a ponta das asas). Ou seja, seria mais largo do que o Airbus A380, o maior avião comercial da atualidade. E poderia transportar mais de 800 passageiros em voos de longa distância.
Já a velocidade, ao contrário do que alguns títulos sugerem, não é fora do comum: a velocidade de cruzeiro projetada ronda os Mach 0.8 (cerca de 987 km/h), praticamente a mesma dos aviões comerciais de hoje. O que muda aqui não é a rapidez, é o tamanho e o formato.
Atenção: por agora, é só um modelo de laboratório
Aqui está o esclarecimento mais importante, e o que muitas manchetes esquecem: não existe nenhum avião destes construído, nem sequer um protótipo à escala real. O que a China testou foi um modelo em aço inoxidável à escala 1:52, com apenas 80 centímetros de comprimento, colocado num túnel de vento para estudar o comportamento aerodinâmico a velocidades entre Mach 0.4 e Mach 0.8.
Os resultados foram animadores em termos de eficiência aerodinâmica, mas trata-se de investigação, não de um produto anunciado. Não há data para construção nem para entrada ao serviço.
Os obstáculos são enormes
Transformar este conceito num avião real esbarra em desafios gigantescos. Desde logo, a envergadura de 85 metros ultrapassa o limite da categoria mais alta (Código F) da Organização da Aviação Civil Internacional, que vai até perto dos 80 metros. Na prática, os aeroportos atuais não estão preparados para um avião tão largo, as pistas de circulação, as áreas de estacionamento e os terminais teriam de ser adaptados.
Há ainda outros problemas por resolver, como a pressurização de uma cabine que não é cilíndrica (a forma de tubo é a mais eficiente para aguentar a pressão em altitude), a evacuação de emergência de uma cabine tão larga, e o facto de a maioria dos lugares ficar sem janelas. Foi por razões económicas, aliás, que o próprio A380, que também podia levar mais de 800 pessoas, acabou por ser descontinuado: nem sempre a ambição de engenharia vence as contas das companhias aéreas.
Um sinal das ambições chinesas
Ainda assim, o projeto mostra a aposta séria da China na aviação. O CARDC já trabalhou em aviões como o C919 (que quer rivalizar com Boeing e Airbus) e prepara o C929. Um widebody de longo curso previsto para voar por volta de 2030. Este avião em forma de asa é mais uma peça de uma estratégia que explora, ao mesmo tempo, várias configurações do futuro.
Veremos se, um dia, chega mesmo a levantar voo com passageiros a bordo. Por enquanto, é um vislumbre fascinante de como poderão vir a ser os aviões de amanhã mas ainda longe da pista.








