Há poucas sensações tão reconhecíveis como o cheiro a chuva quando as primeiras gotas caem depois de dias de seca. Quase toda a gente o reconhece e muita gente adora-o. Mas há uma surpresa: esse cheiro não vem da água. Vem do chão.
De onde vem o cheiro a chuva
O fenómeno tem nome: petricor. A palavra foi proposta por investigadores australianos em 1964, para descrever o aroma associado à chuva sobre solos secos, e vem do grego: petra, que quer dizer pedra, e ichor, o fluido que, na mitologia grega, corria nas veias dos deuses. É uma mistura de óleos libertados pelas plantas e de um composto chamado geosmina.

A geosmina é produzida por bactérias do solo, nomeadamente do grupo Streptomyces, e tem o cheiro característico a terra molhada. Está lá o tempo todo, e o que a chuva faz é libertá-la para o ar para que a possas sentir. O nosso nariz é muito sensível a esta substância, mesmo em quantidades minúsculas. A geosmina aparece também noutros sítios, e é ela que dá o sabor a terra a alimentos como a beterraba e o nabo.
O que a chuva faz ao solo: a descoberta do MIT
Durante décadas ninguém sabia como é que o cheiro passava do solo para o ar. Em 2015, investigadores do MIT, liderados por Youngsoo Joung e Cullen Buie, descobriram o mecanismo. Com câmaras de alta velocidade, filmaram gotas a atingir superfícies porosas e perceberam que, no impacto, a gota prende pequenas bolhas de ar que sobem e rebentam, lançando aerossóis para a atmosfera.
Esses aerossóis transportam as moléculas aromáticas, e o processo faz lembrar as bolhas de um refrigerante ou de uma taça de champanhe. O estudo, publicado na Nature Communications, envolveu cerca de 600 experiências em 28 tipos de superfícies, entre materiais artificiais e amostras de solo.
Porque o sentes mais nas primeiras gotas
A experiência do MIT revelou ainda um pormenor curioso: a chuva leve ou moderada liberta mais aerossóis do que um aguaceiro forte. Por isso o cheiro costuma ser mais intenso no início de uma chuva fraca, sobretudo depois de vários dias sem chover, quando há mais compostos acumulados no solo.
Isto ajuda a explicar porque é que o cheiro parece menos marcado em chuvas fortes: segundo o estudo, as gotas mais lentas aprisionam e libertam as bolhas de forma mais eficaz do que as gotas rápidas.

Porque é que gostamos tanto deste cheiro?
Ninguém sabe ao certo. Uma hipótese, defendida por alguns investigadores, é que os nossos antepassados dependiam da chuva para sobreviver, e que sermos sensíveis ao seu cheiro nos dava vantagem. É só uma hipótese, mas encaixa bem com o facto de o cheiro a terra molhada ter uma ligação emocional tão forte, e há também quem o associe a memórias de infância.
A velocidade da gota e a permeabilidade do solo são os dois fatores que mais pesam na quantidade de aerossóis libertados, e é por isso que o mesmo aguaceiro pode cheirar de maneira diferente num campo, num jardim ou numa calçada. Há ainda uma curiosidade cultural: a antropóloga Diana Young, da Universidade de Queensland, observou que o povo Pitjantjatjara, da Austrália Ocidental, associa o cheiro da chuva à cor verde, ligando-o à expectativa de crescimento das colheitas e à presença de animais de caça. Com o outono a chegar e a chuva a voltar, vale a pena parar um segundo na próxima vez que sentires aquele cheiro e lembrar-te de que estás a cheirar bactérias do chão, atiradas ao ar por bolhas microscópicas.
E tu, és daqueles que adora o cheiro a chuva ou nunca tinhas reparado nele?








