Se há tema que anda a ferver nos bastidores do desporto nacional é a famosa centralização dos direitos televisivos da Liga Portugal. Ou seja, se porventura andas a dormir debaixo de uma pedra, por imposição legal, a partir da época 2028/2029 acaba o modelo em que cada clube negoceia o seu contrato individualmente à mesa dos operadores.
Isto significa que vão acabar aqueles contratos de 400 ou 500 milhões de euros, por 10 anos de direitos de transmissão, como os 3 grandes fizeram da última vez. Porquê? Bem, a promessa oficial é sempre muito bonita no papel. Até porque a ideia aqui é tornar o campeonato mais equilibrado, ajudar os clubes mais pequenos e vender o “produto” lá fora por muito dinheiro.
Mas, nem tudo é perfeito nesta estratégia. Sendo exatamente por isso que o presidente do Sport Lisboa e Benfica liderou uma revolta ao longo das últimas semanas.
Sou muito honesto, sou adepto de um dos 3 grandes, e é cada vez mais claro que esta centralização vai retirar uma quantia de dinheiro muito significativa a estes clubes, para a distribuir pelos outros. Até acho isso bem. A única forma do campeonato evoluir, é meter mais dinheiro nas mãos dos mais pequenos.
Mas, há problemas a ter em conta.
A revolta dos grandes não é por acaso.

O primeiro grande travão vem logo de quem puxa a carruagem das audiências. O SL Benfica já fez saber, através de pedidos formais de suspensão e revisão, que não concorda com o formato atual.
O medo é óbvio! Perder dezenas de milhões de euros por ano num modelo coletivo que ninguém garante que vá gerar mais dinheiro do que a soma dos contratos individuais que existem hoje. É hoje em dia estimado que este clube perca cerca de 20 a 25 milhões de euros por ano. O que claro está, ao longo de uma década, é algo que poderá ascender aos 200~250 milhões. É muito dinheiro.
A somar a isto, vários clubes já começaram a mexer-se por fora para garantir a sua fatia antes do fecho da porta. Vimos o Moreirense e mais recentemente as negociações do Casa Pia a apontarem baterias para transmissões em sinal aberto (como na TVI). Isto gera uma fricção imediata no mercado e deixa os operadores tradicionais de cabo a pensar duas vezes sobre o valor real que vão colocar em cima da mesa no futuro leilão.
O fator dos donos estrangeiros, que são cada vez mais em portugal.
Outro ponto crítico que quase ninguém discute a sério é a mudança no perfil dos donos dos clubes.
Hoje em dia já não lidamos apenas com direções tradicionais eleitas por sócios. Casos como o de Evangelos Marinakis no Rio Ave (que controla também o Nottingham Forest em Inglaterra e o Olympiacos na Grécia) trazem lógicas puramente internacionais de gestão de ativos.
De facto, 12 clubes na I Liga e 7 clubes na II Liga possuem participações estrangeiras. Aliás, o Casa Pia é agora detido pelo mesmo dono do Parma.
Qual é o problema? Estes grupos operam numa lógica de sinergia própria e valorização de passes de jogadores para os seus mercados principais. A discussão sobre a sobrevivência ou distribuição de tostões na televisão local não é o foco principal destas estruturas. O que torna qualquer consenso na Liga muito mais difícil de fechar. Além disso, é possível que estes clubes acabem por meter o dinheiro da liga portuguesa nos bolsos dos outros clubes do mesmo dono.
Como é que o dinheiro vai ser dividido afinal?

O modelo aprovado na Assembleia Geral da Liga (com cerca de 80% de votos favoráveis) definiu uma divisão prévia onde 90% da receita total vai direta para a I Liga e apenas 10% fica para a II Liga.
Dentro do escalão principal, o bolo financeiro é fatiado através de critérios muito específicos:
- 44,2% por Mérito Desportivo: Pesa a classificação final da época, o histórico dos últimos anos e os pontos somados para o ranking europeu da UEFA.
- 33,2% em Parcela Fixa Igualitária: Um valor idêntico entregue a todos os 18 clubes da I Liga, sem olhar a nomes ou palmarés.
- 17,6% por Audiências e Assistências: Medido diretamente através dos números reais de audiometria televisiva e da presença física de adeptos nos estádios.
- Restante % para Infraestruturas e Marca: Prémio distribuído pela qualidade dos relvados, iluminação, recintos e esforço de marketing digital de cada clube.
Entretanto, para tentar não asfixiar quem dá a cara na Europa, foi criado um mecanismo onde metade do excedente das verbas do ranking UEFA é blindado exclusivamente para os 3 clubes que mais pontos somarem nas competições europeias. Restantes 50% distribuídos pelos outros 15 emblemas.
Mas… Será que isto faz sentido. Temos de ter a noção do peso real dos 3 grandes!
Para terminar o tema, num país com o poder de compra de Portugal e onde a grande fatia das audiências está concentrada em três emblemas, avançar para uma centralização forçada sem garantias financeiras de operadores fortes pode ser uma faca de dois gumes.
Ou seja, se o valor total arrecadado no concurso ficar abaixo do esperado, os clubes médios não ganham o desafogo prometido e os clubes de topo perdem fôlego financeiro para competir na Europa. No fim do dia, isto pode acabar por ser mau para todos.







