Já reparaste que, quando caminhas por um parque de estacionamento de um centro comercial em Portugal, parece que estás a ver um filme a preto e branco? Se tens essa sensação, não é apenas a tua imaginação a pregar-te partidas. Na verdade, a grande maioria dos automóveis que circulam nas estradas europeias, e particularmente nas portuguesas, limita-se a uma paleta de cores muito restrita: branco, preto e cinzento. Historicamente, as estradas eram bem mais coloridas, mas hoje vivemos numa espécie de desfile monocromático. Segundo os dados mais recentes da indústria automóvel na Europa, cerca de 80% dos veículos fabricados saem da linha de montagem nestes tons neutros. O cinzento é, inclusive, o líder incontestável no mercado europeu, ocupando o topo das preferências dos consumidores há vários anos consecutivos. Mas porque é que os nossos carros perderam a cor?
Carros perderam a cor: o peso do clima e da economia em Portugal
No caso específico de Portugal, o branco assume um papel ainda mais protagonista. Esta escolha não acontece por acaso, uma vez que o nosso clima mediterrânico, com verões longos e sol intenso, torna o branco uma opção lógica e refrescante. Como o branco reflete a luz solar em vez de a absorver, o interior do teu carro mantém-se significativamente mais fresco do que se tivesses optado por um modelo preto ou azul-escuro.
Além disso, existe um fator financeiro que não podes ignorar. Na maioria das marcas, o branco sólido é a única cor de série que não implica um custo extra no momento da compra. Consequentemente, muitas empresas portuguesas que gerem grandes frotas optam por esta cor para manter os custos controlados. Como as vendas a empresas representam uma fatia gigante do mercado nacional, acabamos por ver um mar de carros brancos em cada esquina.
A segurança do valor de revenda
Outro motivo crucial para esta tendência é o medo da desvalorização. Quando chegar a altura de venderes o teu carro usado, queres que ele agrade ao maior número possível de pessoas. Por esse motivo, as cores neutras são consideradas apostas seguras. Enquanto um carro cinzento ou preto é aceite por quase todos os compradores, um modelo cor de laranja ou amarelo pode afastar interessados e obrigar-te a baixar o preço para conseguires fechar negócio.
Nesse sentido, os próprios concessionários em Portugal e na Europa jogam pelo seguro. Ao encomendarem stock para exposição, privilegiam os tons sóbrios porque sabem que o tempo de venda será menor. Adicionalmente, esta padronização facilita os processos de reparação de pintura, já que encontrar os códigos de cor para um cinzento metalizado comum é muito mais simples do que para uma tonalidade exótica e personalizada.
O regresso das cores vivas e das novas tendências
Apesar deste domínio do grayscale, nem tudo está perdido se gostas de te destacar na multidão. Recentemente, começamos a observar uma ligeira mudança de paradigma. O azul tem ganho terreno como a cor colorida preferida dos europeus, surgindo frequentemente em tons mais profundos e sofisticados. Por outro lado, o verde está a viver um momento de glória, especialmente em modelos SUV e veículos elétricos, sendo utilizado pelas marcas para reforçar uma imagem de ligação à natureza.
Adicionalmente, as tecnologias de pintura evoluíram imenso. Atualmente, podes encontrar acabamentos mate ou pinturas bi-tom, onde o tejadilho tem uma cor diferente do resto da carroçaria. Estas opções permitem que tragas alguma personalidade ao teu veículo sem necessariamente escolher uma cor berrante que prejudique a futura revenda.
Em suma, embora o cinzento e o branco continuem a ditar as regras nas nossas ruas por razões de conforto, economia e tradição, o mercado está a tornar-se lentamente mais aberto a novas expressões. Se estás a pensar comprar carro novo, talvez valha a pena arriscar naquele tom de azul ou verde que tanto gostas, ajudando assim a quebrar a monotonia visual das nossas cidades.









