Ontem escrevi um artigo de opinião sobre a minha crença de que o mundo automóvel terá de baixar preços, de forma a lidar com a ofensiva Chinesa que está agora a chegar aos concessionários. Sim, Carros Chineses já não são uma novidade há bastantes anos, e começam a convencer os consumidores de formas que eu achava ser quase impossíveis.
O paradigma está a mudar, e apesar de várias barreiras impostas pela União Europeia, estes carros estão a chegar cada vez mais equipados, mas ainda assim muitíssimo mais baratos que vários rivais diretos europeus.
O que levanta uma questão… Queres um carro Europe ou um Chinês?
Carro chinês ou europeu: A questão não é essa!

Ora bem, nos últimos tempos tornou-se quase impossível abrir as redes sociais, ler notícias do setor automóvel ou ouvir conversas de café sem esbarrar no mesmo debate aceso… A suposta invasão dos carros chineses contra a hegemonia das marcas europeias tradicionais.
De um lado da barricada surgem os defensores da indústria do Velho Continente a puxar dos galões da história, do prestígio e dos postos de trabalho. Do outro lado aparecem as conversas sobre subsídios estatais de Pequim, concorrência desleal e ameaças à segurança de dados.
Muito boa gente gosta de defender uma guerra entre dois lados, onde o condutor tem de escolher uma bandeira antes de assinar a folha de encomenda no concessionário. Só que quem anda no mundo real e olha para a carteira sabe perfeitamente que essa conversa não faz qualquer sentido.
O consumidor começa a não querer saber das “guerras”. Está apenas focado em poupar dinhiero.
Ou seja, não é uma questão de preferência. É uma questão de conseguir pagar.

Acredito que em vários mercados Europeus isto não seja assim tão simples. Mas, em Portugal, não existe a capacidade de mudar de carro só porque sim. É preciso fazer muitas contas, e é exatamente aqui que os Chineses atacam e atacam bem.
O mercado automóvel nacional sempre foi dos mais massacrados pela carga fiscal na Europa, algo que teima em mudar. E, infelizmente, o poder de compra do cidadão comum não dá para andar a brincar às guerrinhas comerciais.
O divórcio entre a Europa e o ordenado mínimo?

Durante décadas, a classe média portuguesa teve referências muito claras. Ou seja, o sonho de chegar a um Volkswagen, a um Renault ou a um BMW. Na loucura, um Mercedes se a vida corresse um bocadinho melhor. Eram automóveis com performance, bem construídos, que serviam uma família durante dez ou quinze anos sem exigir um endividamento para três gerações.
Hoje em dia? As coisas mudaram quase por completo. Porquê?
É uma história complicada.
Se existiu ganância na passagem para o 100% elétrico e híbridos plug-in? Sim, talvez alguma. Podemos dizer que algumas fabricantes aproveitaram para aumentar preços e manter margens ao longo de todos estes anos. Algo que aliado com a política dos opcionais (sempre significativamente mais caros), mete o patamar de preço bastante lá em cima face a estas novas propostas orientais.
Depois, além de tudo isto, temos ainda a perda da diferenciação mecânica, porque é óbvio que existia mais talento no lado alemão e francês da coisa no desenvolvimento e construção de motores a combustão, bem como também no lado do conforto graças às suspensões bem pensadas (e trabalhadas), nunca esquecendo a forma como o chassis se comportava em cada curva. Algo que pura e simplesmente não existe (ou existe muito pouco) no lado chinês da coisa.
De facto, nesta última parte, os especialistas e entusiastas ficam de boca aberta, porque os consumidores também não se parecem importar muito com essa perda inegável de qualidade e cuidado.
Mas, a história não pode, ou pelo menos não deve ficar por aqui.

A razão é muito simples, as regras do jogo não são iguais no lado das marcas europeias e marcas chinesas.
As fabricantes chinesas não têm de lidar com sindicados, as mesmas metas ambientais das marcas europeias, ou talvez mais significativo que tudo isto, não têm de lidar com uma União Europeia que hoje quer uma coisa e amanhã já quer outra.
Infelizmente, o mercado automóvel andou vários anos a reboque de ideias políticas pouco felizes, que agora começam a desvendar um potencial descalabro para a economia da própria união.
Curiosamente, um bom exemplo está na já mencionada Renault, uma das grandes “mães” dos carros elétricos europeus, que por sua vez andou a perder dinheiro em cada unidade vendida do velhinho Zoe durante anos. Um esforço que deu frutos, e que até resultou num dos melhores carros elétricos compactos do mercado (Renault 5) mas é muitas vezes uma estratégia pouco valorizada no mercado europeu ou global. Mas, falta de esforço não existiu com toda a certeza.
Mas… No final do dia, o que manda? Mais valor ganho por cada euro investido. É o que faz a diferença.
É aqui que o debate “China versus Europa” ganha extrema importância.
Quando um português de classe média junta as suas poupanças para trocar de carro e entra num concessionário da BYD, da MG, da Leapmotor ou da Geely, não está a fazer um manifesto geopolítico.
O que essa pessoa vê à sua frente é um automóvel elétrico ou híbrido com bateria decente, 7 ou 8 anos de garantia oficial de fábrica, bancos em pele sintética aquecidos e ventilados, teto panorâmico, câmaras a 360 graus, sistemas avançados de assistência à condução de série e um ecrã central rápido, tudo empacotado por 25 mil ou 30 mil euros. De facto, agora até consegue encontrar isto perto dos 20 mil euros.
Se for tentar configurar rigorosamente o mesmo nível de equipamento e autonomia numa marca europeia equivalente, o configurador salta com facilidade para os 42 mil ou 48 mil euros. Estamos a falar de uma diferença que equivale a mais de um ano inteiro de salário líquido para a esmagadora maioria das famílias portuguesas!
Pedir a um pai de família para pagar mais 15 mil euros apenas para ostentar um logótipo tradicional na grelha frontal é um absurdo desfasado da realidade económica do país.
O choque de realidade que a europa precisava?
Isto não pode ser apenas uma questão de “comprar em casa”. As marcas Europeias têm obviamente mais qualidade. Qualquer consumidor iria querer sempre optar pelo estatuto, pela qualidade comprovada, e pela assistência sempre presente.
Mas, é preciso mudar algo. O consumidor não tem culpa de querer o melhor retorno pelo seu dinheiro suado ao fim do mês. Por isso, é preciso mais foco e mais competitividade na Europa. Os Chineses entraram e vão fazer mossa, isso é mais do que óbvio. A questão agora passa por perceber em como é que o mercado tem de mudar para continuar cheio de vida.
As marcas europeias não começaram hoje ou ontem. Estão cá há muitos anos. Muitas delas há mais de 100 anos… E vão continuar! Talvez diferentes, mas isso também é a ordem natural das coisas.






