Há muito que se suspeita que crescer com um cão faz bem às crianças. Agora, um novo estudo finlandês foi mais longe: descobriu que os bebés que vivem com cães adoecem menos e apontou até o porquê. Parece luz verde para correr ao canil “pela saúde dos miúdos”. Mas outro estudo, com quase 100 mil crianças, complica a história. Vale a pena perceber o que a ciência diz mesmo antes de tirar conclusões. Então ter um cão protege a saúde dos filhos ou não?
Ter um cão protege a saúde dos filhos ou não? O que o estudo finlandês descobriu
Investigadores do Instituto Finlandês de Saúde acompanharam 368 crianças desde a gravidez até ao primeiro ano de vida. Os pais registavam semanalmente febres, otites e uso de antibióticos, e os cientistas analisaram o pó recolhido do chão da sala quando os bebés tinham cerca de dois meses.
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O resultado: as crianças que viviam com cães tiveram, em média, menos infeções respiratórias, menos febre e precisaram de menos antibióticos. E a parte mais interessante, os micróbios associados aos cães presentes no pó da casa explicavam até um quarto desse benefício. A teoria é que a exposição precoce a estas bactérias e fungos ajuda a treinar o sistema imunitário do bebé, ainda em formação.
Porque é que isto não é luz verde para comprar um cachorro
Aqui é preciso travar o entusiasmo. Este é um estudo observacional: mostra uma associação, não prova que o cão seja a causa. É perfeitamente possível que famílias com cães partilhem outros hábitos que expliquem parte do efeito.
Além disso, a amostra é muito específica, famílias finlandesas, uma boa parte a viver em quintas ou zonas rurais, e o pó foi recolhido uma única vez. Os próprios autores admitem que os resultados podem não se aplicar a outras populações. É uma pista promissora, não uma certeza.
O outro lado da moeda: o estudo sueco
E é aqui que a história ganha nuance. Uma investigação do Karolinska Institutet, na Suécia, seguiu 99.389 crianças já diagnosticadas com asma e alergia respiratória. Conclusão: viver com um cão não agravou a gravidade da asma a longo prazo, mas associou-se a um aumento modesto do risco de crises.

E não é caso único. Uma grande meta-análise europeia, com mais de 77 mil crianças, concluiu que ter cão não causa asma por si só, mas pode agravar os sintomas em crianças que já são alérgicas ao animal. Traduzindo: o efeito depende muito de que criança estamos a falar.
Então, afinal, faz bem ou mal?
A resposta honesta é: depende. Para um bebé sem alergias, crescer ao pé de um cão saudável parece, no balanço, mais provável de ajudar do que prejudicar o desenvolvimento das defesas, muito provavelmente através daquela troca de micróbios. É a chamada hipótese dos “velhos amigos”: o nosso sistema imunitário coevoluiu com estes micro-organismos e beneficia do contacto com eles.
Já para uma criança que sofre de asma ou é alérgica a cães, a conta muda, e aí a presença do animal pode desencadear mais crises. Por isso, nada disto é motivo para ir buscar, ou dar, um cão de ânimo leve. E se tens em casa uma criança asmática ou alérgica, a decisão pertence ao vosso médico, não a um título de notícia. A ciência aqui aponta tendências para grupos de milhares de crianças; não substitui o caso concreto do teu filho.
O que fica é um retrato mais rico do velho companheiro de quatro patas: para uns, um aliado invisível das defesas; para outros, uma variável a gerir com cuidado.







