A evolução da vigilância tecnológica é um tema que pessoalmente sigo de perto, mas que todos nós deveríamos ter debaixo de olho. Afinal de contas, há muito que as câmaras de leitura de matrícula (e de facto câmaras no geral) deixaram de servir apenas para apanhar quem circula sem seguro ou quem entra em zonas de emissões reduzidas.
Mas, a realidade é que a indústria acabou de inventar eleva a falta de privacidade a um nível que roça o assustador.
A mais recente evolução dos sistemas de reconhecimento automático de matrículas já não quer saber apenas dos números gravados na chapa do teu carro. Através de uma nova tecnologia chamada SignalTrace, o sistema consegue fazer “scan” passivamente ao interior do veículo e captar as ondas de rádio dos dispositivos que trazes contigo. Sim, isto significa que as câmaras apanham tudo desde os teus AirPods ao teu smartphone, passando pelo relógio desportivo ou até pelo chip de identificação do teu cão.
SignalTrace: A criação de uma assinatura digital única? Para quê?
Portanto, o sistema foi desenvolvido pela empresa norte-americana Leonardo e funciona de forma muito simples nos bastidores.
Ou seja, enquanto a câmara tira a fotografia tradicional à traseira ou à frente do carro, um sensor de rádio varre o espetro sem fios à procura de ligações Bluetooth, Wi-Fi ou RFID. Afinal de contas, cada um dos teus gadgets emite um identificador único de fábrica (o endereço MAC), e o sistema junta todas essas informações para criar uma pegada eletrónica exclusiva do condutor e dos passageiros.
A própria empresa explica isto sem qualquer tipo de vergonha nas suas especificações técnicas. Encontrar um carro com um iPhone na estrada é banal, mas encontrar um carro que lá dentro tenha um iPhone específico, uns auscultadores Bose, um relógio Garmin e um localizador de chaves AirTag é uma combinação única em milhões. A partir do momento em que o sistema cruza esses dados com a matrícula do carro pela primeira vez, ficas marcado para sempre na base de dados deles.
O grande objetivo disto para as autoridades é conseguir seguir os ocupantes de um veículo mesmo que estes decidam trocar as chapas de matrícula. Ou circular com uma placa falsa/usar um carro roubado. No fundo, é uma outra forma de te identificar. Se os teus dispositivos estiverem ligados, o sistema sabe exatamente quem vai lá dentro.
O perigo da vigilância invisível e o travão do RGPD?
Toda esta situação torna-se ainda mais grave porque estes sensores nem precisam de estar associados a uma câmara de trânsito. Podem ser espalhados por estações de comboio, paragens de autocarro ou centros comerciais.
Ou seja, se passares a caminhar com o telemóvel no bolso perto de um destes detetores e mais tarde entrares num carro… O sistema faz a ligação imediata entre os teus passos e o veículo.
Nos Estados Unidos, os ativistas dos direitos civis estão num autêntico pé de guerra. No entanto, por cá na Europa, a brincadeira muda um bocadinho de figura graças ao RGPD. Estamos mais protegidos.
A legislação europeia deixa claro que os identificadores únicos dos dispositivos são considerados dados pessoais. Captar e guardar estes dados de forma massiva e sem o consentimento explícito do cidadão é totalmente ilegal. O que deverá dar uma enorme dor de cabeça jurídica se esta empresa tentar vender a tecnologia em solo europeu.
Para já, como consumidores, a única defesa que temos para evitar sermos perfilados desta maneira é começar a ganhar o hábito de desligar o Bluetooth, o Wi-Fi e o NFC do telemóvel. Dá mais trabalho, mas fecha a torneira às ondas de rádio que andamos a espalhar sem darmos por isso.




