O Google alterou a forma como aplica na Europa uma das suas políticas de spam mais polémicas, a chamada site reputation abuse, muitas vezes associada ao “parasite SEO”. A mudança entrou em vigor a 30 de agosto e abrange os utilizadores dos 27 países da União Europeia, incluindo Portugal, além da Islândia, Noruega e Liechtenstein. Mas, ao contrário do que alguns títulos podem sugerir, isto não é uma autorização para publicar conteúdo comercial sem controlo. Vale a pena perceber exatamente o que muda.
O que é a política de “site reputation abuse”
Esta política, introduzida pelo Google em 2024, procura impedir que páginas de terceiros aproveitem a autoridade de um domínio reputado para alcançar posições que, por si sós, nunca conseguiriam. O exemplo típico é um site de notícias com forte autoridade que “aluga” secções a terceiros, cupões, análises pagas, conteúdos de parceiros que sobem nos resultados à boleia da reputação do domínio. Foi para travar essa prática que o Google começou, em janeiro de 2025, a aplicar ações manuais na Europa.

O problema, apontado por muitos publishers, é que a regra também penalizava conteúdo comercial legítimo, media que aloja publicações pagas ou de parceiros de forma transparente acabava, em alguns casos, despromovido.
O que muda a partir de 30 de agosto
A alteração surge no âmbito de uma investigação da Comissão Europeia ao abrigo do Regulamento dos Mercados Digitais (DMA), legislação cujas coimas podem chegar aos 10% da faturação global. Para evitar essa multa, o Google aceitou ajustar a aplicação na Europa.
Em concreto: a partir de 30 de agosto, as ações manuais associadas especificamente a esta política deixam de despromover os resultados apresentados aos utilizadores do Espaço Económico Europeu. Na prática, uma página que fosse penalizada por este motivo pode voltar a aparecer normalmente nas pesquisas feitas a partir de Portugal.
O que NÃO muda (e é aqui que muita gente se vai enganar)
Este é o ponto mais importante, e onde convém ter cuidado:
- O Google não eliminou a política. Continua a considerá-la válida e afirmou que só fez esta alteração a contragosto, por imposição regulatória.
- As ações manuais continuam a existir e a surgir notificações no Search Console. Simplesmente deixam de afetar os resultados dentro do EEE.
- Fora do Espaço Económico Europeu, tudo se mantém. A mesma página pode recuperar em Portugal e continuar penalizada nos Estados Unidos, no Brasil ou noutros mercados. Pela primeira vez, o Google passa a ter resultados diferentes consoante a localização de quem pesquisa.
- Os sistemas algorítmicos continuam a funcionar. As secções afetadas podem continuar a ser classificadas e avaliadas separadamente pelos algoritmos de qualidade. E todas as outras políticas de spam, conteúdo produzido em massa, sem supervisão editorial, destinado apenas a manipular posições, mantêm-se aplicáveis.
O que isto significa para os publishers portugueses
Para um site noticioso português que aloja artigos patrocinados ou conteúdos de parceiros de forma legítima e com supervisão editorial, a notícia é positiva. Deixa de arriscar esta ação manual específica nos resultados europeus, só por acolher esse tipo de conteúdo.

Mas a leitura errada seria perigosa. Isto não torna seguro publicar artigos fracos, produzidos por terceiros sem controlo, ou desenhados apenas para manipular o ranking. Essas práticas continuam a ser apanhadas por outras regras e pelos algoritmos e continuam a prejudicar-te fora da Europa. Quem depende do Google Discover e da Pesquisa deve, por isso, manter o foco no que sempre contou. Ou seja, conteúdo original, verificado e com autoria e edição reais.
No fundo, o Google não “legalizou” o parasite SEO. Apenas deixou de aplicar, na Europa e por imposição do regulador, uma penalização manual específica e a diferença entre estas duas coisas é tudo o que interessa perceber.







