É realmente uma grande ideia, criar um dispositivo Ubuntu capaz de ser ora tablet, ora computador, e a Canonical não poderia escolher melhor ponta de lança que o BQ Aquaris M10 que, na sua base, é um dispositivo bastante interessante e com características excelentes. O autor abraçou o conceito e decidiu dar ao BQ Aquaris Ubuntu Edition um test drive para ver quão eficaz o conceito poderia ser no seu quotidiano de cronista na Leak Tecnologia. E há definitivamente arestas por limar.

O que representam o BQ Aquaris M10 Ubuntu Edition e a Continuidade

A polivalência é hoje um desejo da maioria dos profissionais. Todos queremos mais capacidade nos nossos dispositivos e a possibilidade de desempenharmos num único aparelho o que anteriormente teríamos de fazer em dois ou três.

O conceito de continuidade é fundamental para isso. Os dispositivos capazes de trabalhar tanto como tablet, quanto como computadores tradicionais ligados a periféricos são cada vez mais populares e mesmo fundamentais para os profissionais. Representam portabilidade e adaptabilidade sem precedentes, características muito atraentes para todos os utilizadores.

No caso do BQ Aquaris M10 Ubuntu Edition, o dispositivo traz a Canonical para a vanguarda da continuidade, dando ao Ubuntu uma arma com poder nada negligenciável para disseminar e aumentar o potencial do sistema operativo para particulares e empresas. Mas é ainda uma arma certamente por acabar.

Trabalhar no BQ Aquaris M10 Ubuntu  – Tentativa 1

O LibreOffice é uma excelente ferramenta mas não é utilizável em modo tablet sem teclado externo.
O LibreOffice é uma excelente ferramenta mas não é utilizável em modo tablet sem teclado externo.

Nada mostra mais o quão inacabado é o conceito de continuidade do Ubuntu quanto o facto de várias apps fundamentais não serem de todo compatíveis com dispositivos móveis.

Utilizamos os nossos smartphones e tablets crescentemente como substitutos de computadores para trabalho quotidiano, por isso um bom editor de texto é fundamental. O Aquaris M10 Ubuntu chega com o LibreOffice e este é um excelente conjunto de ferramentas, mas que não funciona no M10.

Todos os botões estão preparados para ecrãs touch, numa abordagem muito mais povoada que a da Google ou da Microsoft. Mesmo em modo tablet, o LibreOffice apresenta-nos todas as dezenas de pequenos botões com todos os comandos que alguma vez precisaremos, o que em teoria permitira compor um texto com a maior das facilidades.

Infelizmente, o LibreOffice não funciona com teclado no ecrã. Por mais que tentássemos, nem uma única letra se desenhou em qualquer ferramenta. O LibreOffice funciona exclusivamente com um teclado externo, uma situação incompreensível que não pode ser solucionada por um utilizador regular sem alterações na programação do dispositivo.

Só que a situação afecta igualmente o Firefox e o Gedit, o que nos deixa literalmente sem um editor de texto capaz no Aquaris M10.

E a situação é assim porque o modo como as aplicações foram implementadas no sistema operativo obriga a que cada app solicite o teclado virtual. Ora as versões desktop deste software não estão pensadas para ter que solicitar um teclado virtual, então não o fazem. De resto, as aplicações não se transformam exactamente em versões desktop quando utilizamos o M10 como desktop ligado a periféricos; elas são puramente desktop e, como tal, tornam-se bastante ineficazes quando queremos utilizar o dispositivo apenas como tablet e trabalhar em documentos.

Do lado inverso, a aplicação Notes funciona razoavelmente bem, mesmo que seja limitada, mas tem as suas próprias limitações. Por exemplo, não é possível seleccionar caracteres ou porções do texto para eliminação ou cópia para outros documentos; uma vez na Notes, o texto está lá para sempre, no que outros utilizadores têm vindo a relatar como sendo um bug da app.

Trabalhar no Aquaris M10 Ubuntu Edition – Tentativa 2

Em modo destkop as janelas parecem algo perdidas mas é solucionável.
Em modo desktop as janelas parecem algo perdidas mas é solucionável.

Já percebemos que não temos Firefox em modo tablet, uma limitação tremenda para a maior porção dos nossos dias fora de casa, mas felizmente temos a aplicação Navegador. Aqui, a app tem exactamente o problema inverso das apps anteriores: é estritamente em modo tablet e não ganha qualquer funcionalidade em modo desktop. Porque é isto importante?

Sem editores de texto utilizáveis sem teclado externo, tentamos os planos B e C, nomeadamente Office 365 e Google Docs. Sem sorte: o Navegador não tem modo desktop, portanto o Google Docs insiste em pedir o download a partir da Play Store. De nenhum modo funciona em modo browser.

Frustrante, mas ainda tínhamos o Office 365, certo? Errado. Tal como no caso dos Docs, a incapacidade do Navegador activar a versão desktop impede-nos de entrar na nossa conta para utilizar o Word em modo browser. Isto é algo que conseguimos fazer no Chrome em qualquer dispositivo Android, ainda que fique perfeitamente horrível no modo desktop.

Talvez o mais exasperante do Navegador seja, no entanto, o facto de cada separador reiniciar sempre que mudamos para outro. Onde quer que estejamos, a fazer o que quer que seja, se não salvarmos o trabalho, perdê-lo-emos.

Em acréscimo, as animações parecem algo pesadas para o dispositivo e todo o interface deixa uma sensação de lentidão generalizada que não parece reflectir-se na performance interna das apps.

Portanto, nesta fase, como instrumento de trabalho, o BQ Aquaris M10 estava a deixar o autor completamente apeado.

Mas algumas coisas são fantásticas

Os scopes, agregadores de informação, continuam a ser uma ideia brilhante no Ubuntu.
Os scopes, agregadores de informação, continuam a ser uma ideia brilhante no Ubuntu.

O Ubuntu na sua versão móvel não deixa de ser excelente. Os scopes são uma ideia extremamente interessante no modo como agregam informação de diversas apps.

O scope Hoje mostra-nos eventos importantes para hoje, enquanto o Scope Nearby puxa informações de Wikipedia e Yelp entre outras, para nos dar sugestões de artigos, passeios ou refeições perto da nossa localização. O scope Notícias também é bastante activo com as notícias retiradas de alguns dos principais meios informativos mundiais. O scope Música, esse vai buscar sugestões a YouTube, SoundCloud, e 7digital. Navegar entre scopes é tão fácil quanto arrastar a seta na parte inferior do ecrã para se revelarem todos os scopes, ou então deslizar o dedo para a esquerda ou para a direita.

Toda a navegação pelo sistema é bastante diferente daquilo a que estamos habituados, com estes agregadores em vez de -informações fechadas e internas a cada app diferente, pelo que a ideia tem claramente todo o potencial. É, por exemplo, muito mais fácil encontrar toda a informação procurada por esta se encontrar num mesmo ecrã e podemos obviamente puxar novos scopes da loja Ubuntu para tornar a experiência muito mais personalizada. No quotidiano, podemos ver onde este modo de interagir com o tablet se tornaria um verdadeiro favorito de um elevado número de consumidores.

Persistem alguns bugs, claro, e por vezes apps e scopes crasham, quiçá fruto da performance algo lenta do sistema.

Esta não é a continuidade que procura

Quando abordamos o BQ Aquaris M10 Ubuntu Edition, a ideia de continuidade é tão fascinante quanto a premissa do Windows 10, mas o dispositivo mostra que a Canonical ainda não acertou totalmente com a fórmula. Em vez de um dispositivo que se adapta ao modo como queremos que ele seja utilizado, recebemos um dispositivo que tem funcionalidades estritamente para um modo ou para outro.

A última surpresa desagradável deu-se então quando, perto da conclusão deste artigo, começamos a fazer o upload das capturas de ecrã para a Leak.pt, apenas para darmos aí pelo facto de que o Aquaris M10 Ubuntu Edition não tem um explorador de ficheiros de raiz.

Portanto podemos fazer o upload de ficheiros a partir de diversas apps, como a galeria, a câmara o tagger ou biblioteca de música, mas não há como contornar essas opções para fazer upload de documentos de outros tipos que estas apps não “vejam”.

BQ Aquaris M10 Ubuntu Edition: uma aposta obrigatória para programadores

Após vários dias a tentar funcionar com as ferramentas que o BQ Aquaris M10 Ubuntu Edition traz de raiz, a conclusão que tiramos é que este dispositivo não é para nós, utilizadores finais, para as nossas necessidades ou métodos de trabalho.  O principal problema é uma escolha de apps base, entre as que não podem ser usadas em modo tablet (LibreOffice e Firefox), as que deviam estar presentes, mas não estão (onde está o explorador de ficheiros?), e as que não funcionam satisfatoriamente (Navegador).

Do visual à organização, o Ubuntu em sistemas móveis é fantástico.
Do visual à organização, o Ubuntu em sistemas móveis é fantástico.

Claro que existem alternativas na loja, mas deveria ter sido melhor pensada a selecção base de apps, sob pena de limitar o dispositivo a uma utilização desktop que não será certamente dominante para muitos utilizadores. O LibreOffice é excelente, mas para utilização estrita em desktop; torna-se por isso necessário utilizar software secundário para quando estamos nos transportes a trabalhar, e o mesmo pode ser dito de outras apps e isso não deveria acontecer.

Mas esta não é uma crítica cheia de negativismo, apenas o realçar de problemas de dentição que maculam um potencial enorme. Se o BQ Aquaris M10 Ubuntu Edition não é um produto acabado para o utilizador final, há aqui um manancial de possibilidades para os programadores e utilizadores de Linux. Muitos dos problemas que encontramos serão resolvidos no curto prazo, e o dispositivo é fundamentalmente uma pedra de toque para a verdadeira implementação da continuidade em Ubuntu. Na mão de programadores, este dispositivo permitirá um grande salto em frente para o Ubuntu, já que o essencial da Continuidade está aqui e isso é de celebrar num mercado bastante dominado por poucos nomes.

Será desta base que muitos programadores conseguirão de facto criar algo que promete ser extraordinário e, desse ponto de vista, como precursor, o BQ Aquaris M10 Ubuntu Edition é um dispositivo histórico que deixará herança. Daqui a alguns anos este será o dispositivo que começou tudo, e sem dúvida que muitos fãs do sistema ainda o terão em mãos. Na sua base, não há nada de errado com dispositivo ou sistema operativo, apenas uma série de arestas para limar.

Se é programador e está à vontade com o sistema Ubuntu, não há como errar nesta aquisição. Mais, ela será quase fundamental.

Os utilizadores finais, no entanto, ficarão vastamente mais satisfeitos com a versão Android do M10.

Nota: optamos por não dar classificação ao BQ Aquaris M10 Ubuntu Edition por nos parecer que este é uma prova de conceito que a BQ e a Canonical decidiram abrir a todos os utilizadores Ubuntu, mas que não pode ser comparado com produtos de mercado de consumo estritamente falando.

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