Num mundo dominado por Android e iOS, com Windows a tentar ganhar terreno e sistemas como o Tizen da Samsung ainda a tentar sair do residual, haverá ainda espaço para mais um sistema operativo? Mark Shuttleworth, dono da Canonical, acredita que sim, e tem sido um proponente imparável do Ubuntu para smartphones, uma ideia que a BQ abraçou, lançando o BQ Aquaris E4.5 e, mais recentemente o BQ Aquaris E5 Ubuntu Edition.

Esta especificidade faz deste artigo algo único, pois enquanto enquanto os outros sistemas operativos são já razoavelmente conhecidos, o Ubuntu na sua vertente móvel é relativamente novo e tem particularidades que o tornam francamente distinto das alternativas. Se estas o tornam melhor, pior ou simplesmente diferente que a concorrência, é algo que veremos a seguir, mas desde logo fica a nota de que com o BQ Aquaris E5, pelo menos o sistema beneficia de um hardware de base bastante positivo.

Desenho e hardware

O Aquaris E5 HD Ubuntu Edition, tem um design sóbrio e consumado.
O Aquaris E5 HD Ubuntu Edition, tem um design sóbrio e consumado.

Como o nome rapidamente nos permite saber, o BQ Aquaris E5 HD Ubuntu Edition é exactamente o mesmo telemóvel por dentro que o E5 normal, e apresenta-nos um quad-core Mediatek a 1.3GHz, mas enquanto inicialmente o E5 parecia vir com 2GB de RAM, os exemplares mais recentes têm apenas 1GB. Em termos de armazenamento interno, temos 16GB, o que é francamente de saudar num telemóvel de €200.

O design do Aquaris E5 é simples e sóbrio, com linhas rectilíneas agradáveis, com as laterais traseiras encurvadas para um toque mais confortável. Não há pormenores de luxo nem apontamentos estéticos hiperbólicos: apenas esta simplicidade eficaz que permite apostar em boa qualidade de materiais. A capa traseira, em plástico, tem solidez qb, e gostamos do modo como o ecrã é algo mais estreito que o perímetro do corpo, o que dá a sensação de um equipamento mais fino do que realmente é, enquanto parece oferecer protecção extra contra uma queda acidental.

O design do Aquaris E5 é inteligente, com o corpo algo mais largo que o ecrã para um perfil mais elegante.
O design do Aquaris E5 é inteligente, com o corpo algo mais largo que o ecrã para um perfil mais elegante.

A ranhura para o cartão microSD é no topo, algo anormal, e protegida, mas por si só não é particularmente fácil de abrir e de substituir o cartão. No extremo oposto, temos as perfurações para o altifalante em torno da entrada micro USB, mas aparentemente só a esquerda é para o altifalante, enquanto a direita esconde atrás de si o microfone. Seja como for, o Aquaris E5 possui um som bastante denso e com volume apreciável.

Finalmente, a destacar ainda a capacidade dual SIM do equipamento.

Do lado da ergonomia, o telemóvel é fácil de segurar, mas o seu ponto mais interessante é mesmo a solidez na mão. Por €200 e com este tipo de hardware, não é de todo na qualidade de construção que a BQ poupa.

Câmara

A câmara de 13MP tem um bom desempenho e o flash duplo é bem-vindo.
A câmara de 13MP tem um bom desempenho e o flash duplo é bem-vindo.

O Aquaris E5 Ubuntu Edition traz-nos a câmara padrão do E5, ou seja, uma unidade com 13MP de resolução com autofoco e capacidade de captura de vídeo em full HD. O sensor parece de boa qualidade e a performance geral da câmara é muito positiva, com a aquisição aceitavelmente rápida do foco, mas a própria interface que vem com o Ubuntu é, quanto a nós, pobre e deixa-nos com pouco controlo criativo. Tratando-se das apps mais básica que vimos recentemente, o resultado é que este é um capítulo onde não nos parece que estejamos a tirar o máximo proveito das capacidades do E5.

Numa oportunidade futura será interessante verificar como se comporta a câmara do E5 Android.

Ecrã

O Ecrã de 720p é bastante bom para esta gama de preço, com visibilidade razoável mesmo sob luz forte.
O Ecrã de 720p é bastante bom para esta gama de preço, com visibilidade razoável mesmo sob luz forte.

Outro ponto bastante louvável no Aquaris E5 é o ecrã de 5 polegadas com resolução 720p, que nos oferece uma excelente qualidade de imagem, bastante nítida e detalhada, com boa reprodução de cor e índice luminoso. O sensor de luminosidade efectivamente adapta-se rapidamente a mudanças de ambiente, e no exterior continuamos a ter uma boa qualidade de visualização.

Os ângulos de visão também são bastante amplos, sem apreciável deterioração de contraste e cores, enquanto a protecção de vidro é bastante suave de utilizar e não é particularmente propensa a ficar marcada de dedos. Menos óbvio é que os contornos de metal são muito ligeiramente mais altos que o vidro, para uma protecção extra. Tudo somado, o BQ E5 tem um ecrã com qualidade bastante satisfatória para o segmento, e a sua resistência a marcas é a cereja no topo do bolo.

O sistema operativo Ubuntu

A interface do Ubuntu é fantástica, com grande facilidade de navegação entre os scopes.
A interface do Ubuntu é fantástica, com grande facilidade de navegação entre os scopes.

Eis o busílis da questão: que argumentos oferece o Ubuntu face aos sistemas operativos já em circulação?

Desde logo, há vantagens em possuir um ecossistema que partilhe num computador e num smartphone uma linguagem comum, à semelhança do que agora vemos com o Windows 10, mas o que nos parece francamente positivo no Ubuntu é a abordagem muito refrescante à interface táctil de um telemóvel que é, além disso, muito funcional e interessante de aprender.

O interface funciona em todos os quadrantes. À esquerda abre um menu vertical de apps às quais é possível adicionar ou remover apps, enquanto deslizar a partir do topo abre a área de notificações bastante completa, com cada item a ter bastantes informações próprias. A partir da porção inferior do ecrã acedemos às definições do sistema. Finalmente, deslizando a partir da direita, navegamos entre os scopes.

Os scopes, de notícias, vídeo ou música, procuram conteúdos online de várias fontes para maior diversidade.
Os scopes, de notícias, vídeo ou música, procuram conteúdos online de várias fontes para maior diversidade.

Ao contrário do que podemos esperar em Android, o sistema Ubuntu não funciona por apps, mas por painéis, ou “scopes”, como são chamados. O que os scopes fazem é servir de agregadores de conteúdos, misturando os conteúdos online com os conteúdos no próprio telemóvel. O scope dedicado ao vídeo, mostra por isso na mesma página os vídeos de recursos como o Youtube e os filmados por nós, o mesmo sendo válido para fotografias e músicas, mostrando no topo os nossos álbuns e, em baixo, os disponíveis para compra em serviços como o 7digital. No caso das fotografias, o scope concentra o Flickr, Facebook e Instagram.

Na prática, isto significa que temos os temas bem concentrados sem necessidade de abrir apps em separado, mas também significa que temos painéis bastante ricos com conteúdos diversos prontamente acessíveis. O feed de notícias é bastante eficaz, mostrando-nos os principais acontecimentos do dia e é dos aspectos mais positivos do sistema. Ainda melhor, é que cada scope permite acções de busca. No scope do entretenimento, que reúne cinema, música, vídeos, é simples procurar o nome de um filme, e os resultados chegam-nos dos diversos serviços, oferecendo trailers, bandas sonoras, filmes para alugar, etc.

Todos os quadrantes têm uma função. À esquerda encontramos o lançador de apps.
Todos os quadrantes têm uma função. À esquerda encontramos o lançador de apps.

Obviamente, todo o potencial dos scopes é atingido quando estamos conectados, sendo o Ubuntu móvel um SO conectado por natureza e genética. Isto não tem que ser assustador, já que o sistema nos dá uma ampla capacidade para configurarmos onde queremos, por exemplo, ir buscar resultados de música. Embora 7digital, Grooveshark, Soundcloud, Songkick e Youtube estejam todos a bordo, podemos optar por incluir apenas aqueles serviços onde temos uma conta.

Do ponto de vista visual, o Ubuntu é extremamente agradável e tridimensional, além do mais bastante mais elegante que o brando e insonso “material design” do Android e responde muito bem, com animações bastante interessantes. Por exemplo, podemos navegar entre os scopes num modo de previsão que nos permite vê-los sobrepostos. Sair deles ou de apps activas é apenas um caso de deslizarmos para cima ou para baixo cada nível, assim desligando-o.

Outra particularidade do sistema Ubuntu é que o telemóvel não possui teclas virtuais, ao contrário de qualquer Android. Podemos sentir-nos estranhos por momentos, mas o sistema de facto dispensa qualquer necessidade de teclas. Por um lado, navegar entre scopes é tão fácil quando passar o dedo numa direcção ou outra. Por outro, as teclas pertinentes (como a opção de recuar) estão localizadas nas próprias apps. A navegação é por isso sem falhas.

Um dos pontos interessantes: a capacidade dual SIM.
Um dos pontos interessantes: a capacidade dual SIM.

O brilhantismo dos scopes é tratarem-se fundamentalmente de aplicações em HTML5, o que tornará tudo mais fácil para programadores. Inclusivamente, os scopes não precisam funcionar apenas por temas, mas qualquer website pode ter o seu próprio scope, da Wikipedia ao eBay. Como tudo isto é open source, é mais do que provável que vejamos o surgimento de cada vez mais scopes criados de forma independente para serviços que, eles próprios, não se envolveram no desenvolvimento. Para a Canonical (e para os utilizadores), isto elimina (pelo menos parcialmente) a possibilidade do sistema falhar por falta de interesse dos grandes nomes em investirem em mais um sistema operativo, enquanto permite à partida um crescimento rápido do que está disponível.

Funcionar no Ubuntu é por isso funcionar num ambiente rico de conteúdos com uma amplitude apreciável de possibilidades para quem quer manter-se actualizado ou entretido. Os scopes funcionam tão bem que podem ser francamente uma distracção, à medida que chegam a bordo novos feeds.

Só uma das colunas é de facto um altifalante, com a outra a esconder o microfone.
Só uma das colunas é de facto um altifalante, com a outra a esconder o microfone.

Perante todo este potencial, o estado extremamente limitado da Ubuntu Store é quase irrelevante. Apesar de algumas apps (fotografia, player) serem bastante básicas para já e necessitarem francamente de mais funcionalidades, em si mesmo o sistema traz um conjunto base de opções que tornam o telemóvel um equipamento bastante completo. O verdadeiro ponto negativo é o tempo que as aplicações demoram a iniciar, vários segundos, invariavelmente, quer estejamos a abrir a câmara, um jogo ou o navegador.

Isto não é um problema do telemóvel. O BQ Aquaris E5 é um excelente performer, com uma responsividade sem falhas, e em si mesmo o Ubuntu é fluído e rápido. É apenas o arrancar das aplicações que é demasiado lento para aquilo a que nos habituamos, mesmo no caso das aplicações mais básicas. Se há aspecto que precisa de ser melhorado aqui, é precisamente este.

Performance geral

Apesar da app simplista, o E5 Ubuntu Edition tem um som excelente para multimédia.
Apesar da app simplista, o E5 Ubuntu Edition tem um som excelente para multimédia.

Fora as especificidades do Ubuntu, o Aquaris E5 tem uma performance bastante positiva, sem abrandamento nem soluços de maior, embora dê a sensação que há alguma tendência para o aquecimento quando temos um pequeno número de apps abertas e seria talvez aqui quem mais 1 giga de RAM poderia ter feito realmente a diferença. No entanto, são queixas menores e quanto à carga que impõe ao processador, o Ubuntu parece estar bem concebido. As aplicações em si mesmas correm bastante bem, uma vez que ultrapassemos o lançamento lento.

A bateria, essa, aguenta-se bem durante um dia de utilização moderada, mas como o potencial dos scopes é atingido quando estamos online, se não tivermos cuidado, podemos dar por nós sem sumo.

Uma nota extremamente positiva deve ir para o som que a BQ nos oferece e que será dos melhores do mercado neste segmento. A tecnologia Dolby não só garante um volume de som bastante destacado, como uma nitidez geral que supera o que frequentemente conseguimos encontrar neste segmento de mercado. Se em alta-voz o som é volumoso e bastante aceitável, com um bom par de auriculares, o Aquaris E5 é sem dúvida um excelente telemóvel para ouvirmos música.

Conclusão

O BQ Aquaris E5 HD Ubuntu Edition junta um sistema operativo diferenciador a um hardware sólido e com boa performance. Em si mesmo, o Aquaris E5 mostra um desenho cuidado e uma qualidade de construção que são mais do que prova que a qualidade não se encontra só nos grandes nomes, e a relação qualidade/preço é cada vez mais um terreno democrático e fértil de alternativas.

Isto é algo válido para a versão Android, mas ainda mais válido para a versão Ubuntu. Os beneficiados não são apenas os aficionados do Linux, mas todas as empresas que já utilizam o sistema em desktops, mas não temos de ficar por aqui. O Ubuntu é, na sua generalidade, um SO bastante completo e excitante de utilizar, com a capacidade de agregação dos scopes a ser um dos seus mais impressionantes traços. Assim, oferece uma verdadeira alternativa aos restantes sistemas operativos no mercado e qualquer utilizador a migrar para este ambiente poderá demorar um par de dias até se habituar às suas especificidades, mas poderá bem ser conquistado pelo interface fácil e elegante. Só a actual falta de apps na loja poderá ser problemática, mas para uma utilização corrente, o BQ Aquaris E5 HD Ubuntu Edition é bastante completo.

Tal como está, o Ubuntu OS ainda precisa de refinamentos, tal como apps de origem com mais opções de configuração e, principalmente, o lançamento mais rápido destas e dos scopes, mas como sistema operativo é francamente fácil, intuitivo, com grande potencial e uma brisa de ar fresco quanto ao conceito, o que o torna bastante empolgante de descobrir. Intrínseco ao equipamento, a ausência de 4G LTE e apenas 1GB de RAM são os dois pontos menos positivos.

Do lado da BQ, o mérito de oferecer um equipamento bastante sólido, concebido na Europa (raridade hoje em dia) e com uma excelente relação qualidade/preço, à custa apenas de glamour extra, mas sem cortar caminho em termos de qualidade de construção ou dos materiais.

Quando estes ingredientes se juntam, o Ubuntu alia-se ao BQ E5 para transformar um smartphone sólido num equipamento que se diferencia no actual mercado feito de hegemonias e repetições. Uma lufada de ar fresco.

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