Imagina pedir um Bolt pelo telemóvel e o carro chegar… sem ninguém ao volante. Deixou de ser ficção científica. A Bolt, a app de boleias que milhões de portugueses usam todos os dias, anunciou uma parceria para colocar pelo menos 25 mil táxis totalmente autónomos sem condutor (os chamados “robotáxis”) a circular pelas cidades europeias. E Portugal, ao contrário do que se possa pensar, já tem o caminho a ser preparado. Explicamos.
O plano: 25 mil táxis sem condutor (e 100 mil até 2035)
A Bolt juntou-se à Lucid (uma fabricante norte-americana de carros elétricos) para desenvolver e operar uma frota de 25 mil veículos autónomos em “várias cidades e países europeus” que ainda não foram especificados. E a ambição vai mais longe: a meta da Bolt é ter 100 mil carros autónomos na sua plataforma até 2035.

Estes carros vão ser de Nível 4 de condução autónoma. O que significa isto? Que o carro consegue fazer a viagem sozinho, sem qualquer supervisão humana a bordo mas apenas em zonas específicas, mapeadas e autorizadas para o efeito. Não é o “carro que conduz em qualquer lado”; é um serviço confinado a áreas urbanas preparadas. A tecnologia assenta na arquitetura da NVIDIA (a gigante dos chips de inteligência artificial).
Não é só a Bolt: a corrida já começou
A Bolt está longe de estar sozinha nesta corrida. Nos últimos meses, multiplicaram-se os anúncios de robotáxis na Europa:
- A Uber já obteve permissão para operar veículos de Nível 4 em Espanha (com entrada prevista ainda este ano) e iniciou viagens em Londres (ainda com supervisor humano a bordo, por precaução).
- A Waymo (a empresa de carros autónomos da Google) prepara-se para testar em Munique, na Alemanha.
Ou seja, a mobilidade sem condutor está a passar da fase de “experiência” para a de serviço comercial a sério e a Europa é o novo grande palco desta batalha.
E em Portugal? Já há lei para isso
Aqui está a parte que interessa aos portugueses. Muita gente pensa que os carros autónomos são coisa de outros países, mas Portugal já deu um passo importante: em 2026 foi aprovado o enquadramento legal que autoriza o licenciamento de testes de veículos autónomos na via pública, supervisionado pelo IMT.

Entretanto a lei portuguesa é, para já, cautelosa exige um supervisor habilitado a bordo, impõe limites de velocidade mais baixos e obriga a seguros reforçados. Ou seja, o caminho está traçado para os testes, mas ainda com um humano de prevenção no carro. Resta saber qual será a primeira grande empresa a pedir licença ao IMT para pôr carros sem condutor a circular nas ruas portuguesas e, sendo a Bolt tão usada cá, é natural que Portugal esteja no seu horizonte.
O que isto significa (e as dúvidas que levanta)
Se estes planos avançarem, dentro de alguns anos poderá ser normal apanhar um táxi sem condutor numa cidade europeia. As promessas são grandes: viagens potencialmente mais baratas (sem o custo do motorista), menos acidentes por erro humano, e mobilidade para quem não pode conduzir.
Mas há também questões por resolver, que os próprios reguladores admitem: o impacto no emprego dos motoristas, a segurança em situações imprevistas, a gestão do espaço público (onde param estes carros?) e a responsabilidade legal em caso de acidente. São debates que a Europa e Portugal vão ter de travar nos próximos anos.
No fundo, o “carro que se conduz sozinho” está a deixar de ser uma promessa distante para se tornar um plano concreto e com datas. Podemos não os ver já amanhã nas ruas de Lisboa ou do Porto mas, a julgar por estes anúncios, é cada vez mais uma questão de quando, não de se.






