Agora que se aproxima o tempo quente, o tempo de férias e a vontade de viajar, temos também de ter em conta os valores cada vez mais altos dos bilhetes de avião devido à crise de combustíveis que teima em não ser resolvida. Por isso, é fácil perceber que quem gosta de viajar vai virar-se como nunca se virou para as companhias low-cost, onde, claro está, a Ryanair domina com um punho de ferro.
Afinal de contas, para a esmagadora maioria das pessoas, a Ryanair é o sinónimo perfeito de viagens low-cost. Aliás, se achas que a companhia sobrevive com poucos clientes, estás muito enganado. Basta olhar para os Açores, que perderam 25 mil turistas apenas durante o mês de abril, devido ao desaparecimento da companhia no seu espaço aéreo. (A Ryanair encerrou definitivamente todas as suas operações nos Açores. O último voo da companhia low-cost realizou-se a 28 de março de 2026).
Isto é prova que a Ryanair é um exemplo de sucesso na aviação!
Experiência pessoal
De facto, eu já viajei com a companhia e não achei que fosse assim tão diferente de uma qualquer outra companhia de bandeira. Sim, é objetivamente pior. Há coisas bastante mais low-cost, naquilo que é uma empresa otimizada até ao mais ínfimo dos detalhes. Tens mais filas, mais confusão, mais controlo, e claro, muito menos conforto. Mas…Se estiveres disposto, a coisa funciona e tem um impacto brutal na economia de vários países.
Bilhete a 20€: A Ryanair é barata e má, ou barata e eficiente?

Portanto, a companhia aérea irlandesa orgulha-se de liderar o mercado dos voos baratos, e de facto lidera, mas a verdade é que o modelo de negócio mudou drasticamente ao longo dos últimos anos.
Ou seja, quem viajou na fase inicial da empresa, ali na transição para os anos 2000, lembra-se perfeitamente da revolução que foi conseguir voar de um ponto ao outro da Europa por uns míseros 20 euros, com taxas incluídas e sem surpresas na hora do embarque.
O que mudou nos dias que correm?
A engenharia do corte de custos: Como é que a Ryanair consegue baixar os preços?
Pois bem, para perceber o fenómeno, é preciso olhar para a lista de pequenos detalhes que a companhia afinou ao longo das últimas décadas para rentabilizar cada segundo dos seus aviões em terra. Isto porque o negócio da Ryanair não é voar, é otimizar tudo.
Por isso, a grande maioria dos aviões da Ryanair traz escadas dobráveis integradas nas portas dianteiras e traseiras, o que dá total controlo sobre o fluxo de passageiros sem ter de pagar taxas extra de aluguer de pontes de embarque ou escadas móveis aos aeroportos. Além disso, ao entrares no avião, vais notar imediatamente que os assentos não têm aquela bolsa de rede à tua frente para guardar objetos pessoais. No papel parece um corte de conforto, mas a verdade é que menos espaço para arrumação significa menos lixo deixado pelos passageiros e limpezas infinitamente mais rápidas entre voos.
Além disso, o espaço interno é espremido ao limite. (Mas não é assim tão grave)
Um Boeing 737-800 da Ryanair está configurado com 33 filas de assentos, enquanto o mesmo modelo na KLM, por exemplo, traz apenas 31 filas. Estas duas filas extra representam mais 12 bilhetes vendidos por voo, e claro, resultam num espaço para as pernas consideravelmente menor para quem vai sentado. A isto junta-se a escolha estratégica de voar para aeroportos secundários e muito mais baratos. Em vez de aterrar nos grandes eixos centrais, a Ryanair prefere aeroportos mais afastados, o que obriga muitas vezes o viajante a gastar mais tempo e dinheiro em comboios ou autocarros para chegar ao destino final.
Mas, no final do dia, não é o fim do mundo. Tenho 1m90, fui à janela, e não me senti desconfortável o suficiente para me queixar. (E eu gosto muito de me queixar).
A taxa de tudo e mais alguma coisa: O verdadeiro preço do bilhete em 2026?

O grande problema do modelo low-cost atual é que a tarifa básica (Value Fare) dá-te direito apenas ao transporte do teu corpo de um ponto A para um ponto B, com uma mala de mano minúscula que tem de caber obrigatoriamente debaixo do assento da frente. (Daí existirem tantas malas a prometer caber nos medidores da Ryanair).
O que, claro está, é o suficiente para muito boa gente, mas se fores fazer uma viagem de negócios e precisares de levar um portátil, carregadores e roupa para dois ou três dias, és obrigado a fazer o upgrade para a tarifa regular. Opção que adiciona uma mala de 10kg para a cabine e a escolha de lugar (apenas entre as filas 18 e 33), mas tem o condão de duplicar ou triplicar o preço inicial do bilhete instantaneamente.
A somar a isto, a companhia cobra taxas pesadas por serviços que deveriam ser banais. Ou seja, se te esqueceres de fazer o check-in online nas 24 horas que antecedem o voo e precisares que a Ryanair te imprima o cartão de embarque no balcão do aeroporto, a brincadeira vai custar-te cerca de 20 a 30 euros por pessoa em 2026.
Além de tudo isto, o serviço de bordo gratuito foi completamente banido, o que obriga os passageiros a pagar valores absurdos por uma garrafa de água ou por um café durante a viagem.
Mas, como seria de esperar, ao nível da segurança mecânica, convém sublinhar que a Ryanair cumpre escrupulosamente os mesmos padrões europeus exigidos a companhias históricas como a Lufthansa ou a TAP, mantendo um registo de acidentes impecável. No entanto, o ambiente frenético dos aeroportos secundários, as filas intermináveis no embarque e a sensação constante de estarmos a ser empurrados para comprar raspadinhas e perfumes a meio do voo transformaram a experiência de voar numa rotina desgastante.
É o preço a pagar por uma experiência “low-cost”. Não pagas com euros, pagas com paciência.
Os grandes truques e custos ocultos do modelo da Ryanair:
- Tarifa básica: O bilhete básico não inclui espaço nos compartimentos superiores para malas de cabine normais.
- Upgrade (quase) Obrigatório: Levar uma mala de 10kg e escolher um assento normal duplica de imediato o valor anunciado na publicidade.
- Multas: Esquecer o check-in online resulta numa taxa obrigatória para conseguir imprimir o bilhete no aeroporto.
- Aeroportos secundários: As taxas de transporte entre o aeroporto secundário e o centro da cidade anulam muitas vezes a poupança do voo.
A minha visão?
Nós temos de deixar de ser anjinhos e perceber que a Ryanair de hoje já não tem rigorosamente nada a ver com aquela companhia revolucionária dos anos 2000 que nos levava a Londres pelo preço de um jantar com amigos.
Em 2026, voar nesta low-cost transformou-se numa jornada onde passas a dizer que não a tudo. Ou seja, o processo de reserva a desmarcar seguros, a recusar hotéis e a fugir de taxas absurdas para tentar manter o preço controlado.
Mas com os preços a aumentar como nunca, a realidade é que a Ryanair continua a transportar um número absurdo de passageiros todos os dias. Aliás, começa a ser cada vez mais o único caminho que muito boa gente tem para conseguir visitar terras distantes.





