Se há tema que mexe com as conversas de café em Portugal e com os milhares de fãs de futebol espalhados por este pequeno pedaço de terra à beira mar plantado, é o consumo de televisão e de futebol através de listas de IPTV.
Afinal, durante anos, a guerra entre os detentores de direitos desportivos e os serviços piratas parecia o clássico jogo do gato e do rato. Ou seja, as autoridades fechavam um site ou bloqueavam um domínio e, cinco minutos depois, nasciam outros três no mesmo sítio. No entanto, as coisas estão a mudar de figura a nível europeu e a pressão nunca esteve tão alta.
De facto, um novo relatório do Parlamento Europeu veio colocar os pontos nos i’s sobre a pirataria desportiva, exigindo intervenções em tempo real para cortar as emissões enquanto o jogo decorre. Mas será que isto vai mesmo acabar com as transmissões ou estamos prestes a ver a internet legítima a pagar a fatura?
Bloquear depois do apito final já não serve. O modelo do “Piracy Shield” também é assustador.

Portanto, a grande conclusão dos reguladores europeus é óbvia. Deitar abaixo um servidor pirata depois de o árbitro apitar para o fim da partida tem utilidade zero.
Por isso, a nova estratégia passa por obrigar os operadores de telecomunicações a aplicar bloqueios no espaço de 30 minutos logo após uma denúncia ter sido comprovada.
O exemplo dado como referência é o sistema italiano Piracy Shield, que atua diretamente sobre servidores e endereços IP de forma dinâmica, já tendo bloqueado mais de 120 mil transmissões ilegais.
Em França, a mão pesada dos tribunais e da ARCOM reduziu o consumo em direto em cerca de 70% desde 2021. A pirataria moderna já não passa pelos velhinhos sites de streaming cheios de pop-ups. Hoje em dia a malta usa aplicações dedicadas, listas M3U ou ferramentas como o Stremio associado a serviços de descarregamento rápido como o Real-Debrid.
O perigo do “Overblocking”? É real e mete justos a pagar pelos pecadores.
Aqui é que as coisas começam a descambar e convém colocar o dedo na ferida.

Bloquear centenas de endereços IP à pressa no meio de um jogo de futebol traz um efeito colateral gravíssimo conhecido como overblocking.
Assim, como muitos serviços legítimos partilham servidores na nuvem (Cloudflare, AWS, etc.) com transmissões ilegais, mandar um IP abaixo às cegas acaba por deitar abaixo sites de empresas, lojas online e serviços que nada têm a ver com pirataria.
Algo que obviamente não é correto. Não pode valer tudo para meter um travão na pirataria.
Aliás, basta olhar para o que aconteceu recentemente em Espanha. Durante as tentativas da LaLiga para travar transmissões ilegais, o bloqueio de uma mão cheia de IPs deixou mais de meio milhão de domínios perfeitamente legítimos inacessíveis na internet durante várias horas.
É o equivalente a fechar uma autoestrada inteira só porque vai a passar lá um carro sem inspeção.
E os preços!?
No entanto, há um detalhe que os reguladores e os donos dos direitos teimam em não querer ver a sério: a melhor forma de combater a pirataria nunca foi a perseguição cega, mas sim a existência de ofertas legais a preços justos.
De facto, nem falo apenas e só dos preços. Falo também da qualidade do serviço.
Enquanto um adepto comum for obrigado a pagar três ou quatro subscrições separadas e a gastar mais de 60€ ou 70€ por mês apenas para conseguir ver os jogos da sua equipa e os canais do seu país de origem, o incentivo para procurar soluções alternativas vai continuar sempre vivo.
A pirataria não existe, e tem sucesso, porque as pessoas adoram “roubar”. Existe, porque há muito boa gente que tem de roubar, caso contrário não vai conseguir ver nada.







