Há empresas que sofrem com as crises que se vão sucedendo. Mas também há empresas que usam essas mesmas crises para ganhar ainda mais força. A Apple parece estar, mais uma vez, na segunda categoria.
Ou seja, começaram a circular rumores de que a gigante de Cupertino está a comprar toda a DRAM móvel que consegue meter as mãos em cima, isto enquanto paga preços absurdos. Porquê? Simples! Para garantir fornecimento e deixar concorrentes em apuros, sem chips para fazer o que tinham planeado.
Apple pode estar a usar a crise da memória para apertar ainda mais com o ecossistema Android
Antes de mais nada, convém separar o exagero da realidade. Não há, para já, provas sólidas de que a Apple comprou “toda” a DRAM móvel disponível no mercado. Isso seria muito complicado, até para uma empresa com as posses da gigante norte-americana.
Mas é inegável que, enquanto muitas fabricantes Android andam a fazer contas, a cortar margens e a rever especificações, no fundo, a tentar perceber como é que continuam a vender telemóveis sem rebentar com o preço final, a Apple pode simplesmente pagar mais e seguir em frente. Sem grandes impactos no final do dia.
Mas… O ponto não é jogar limpo. É ganhar!
Quando aparece uma crise destas, o objetivo não é ser simpática. O objetivo é proteger o iPhone, proteger as margens, proteger o calendário de lançamentos e, se possível, ainda sair disto com mais quota de mercado. Algo que a Apple consegue fazer muito bem. Aliás, a Apple já nem é a fabricante mais cara do mercado e, como tal, tem vindo a crescer cada vez mais, enquanto as marcas Android caem no esquecimento.
E se para isso tiver de pagar mais por memória, fazer contratos mais agressivos ou garantir stock antes dos outros, vai fazê-lo sem qualquer problema de consciência.
É aqui que o Android começa a sofrer a sério?
O problema é que o mundo Android não é uma empresa. É um ecossistema cheio de fabricantes, modelos, segmentos e margens completamente diferentes. E essa diversidade, que durante tantos anos foi uma força, também se transforma numa fraqueza quando os custos disparam.
Uma Apple consegue absorver pancadas destas durante mais tempo. Uma marca Android de gama média, ou uma marca que vive de vender muito por pouco, sente logo a asfixia. Aliás, as gamas baixas vão ficar bem mais raras, e as gamas médias vão começar a tocar nos 600€.
Enquanto tudo isto acontece, a Apple lança o seu primeiro portátil “barato” e continua a lançar iPhones para tudo e todos. Aliás, mesmo que não exista um iPhone “novo” dentro do orçamento das pessoas, o que não falta para aí são recondicionados.
Claro que, para a Apple, ver recondicionados no mercado paralelo não é tão bom como vender algo novo. Mas… Ter alguém dentro do ecossistema é sempre lucro.
No fundo, isto é Apple a ser Apple
Sejamos honestos. Nada disto seria propriamente chocante. A Apple nunca jogou este jogo para ser a marca mais querida da sala. Jogou para estar sempre um passo à frente, sempre mais protegida e quase sempre com mais controlo do que toda a gente à volta.
Se a crise da memória for mais uma oportunidade para consolidar essa posição, então vai aproveitá-la até ao osso. E quem estiver do outro lado que se desenrasque.









