Habituámo-nos a usar o ChatGPT sem interrupções, mas isso está a mudar. A OpenAI começou esta semana a mostrar anúncios dentro do ChatGPT em 31 mercados europeus, Portugal incluído, num arranque marcado para 24 de agosto. É a maior expansão do programa de publicidade da empresa até hoje e marca uma viragem na forma como a plataforma passa a ganhar dinheiro.
Quem vai (e não vai) ver anúncios
A primeira coisa a saber é que os anúncios não aparecem para toda a gente. Só os utilizadores dos planos gratuito e Go (o mais barato) é que vão ver publicidade. Quem tem Plus, Pro, Business, Enterprise ou Edu continua sem anúncios. A OpenAI diz ainda que não mostra anúncios a contas identificadas como pertencentes a menores de 18 anos.

Ou seja, se usas a versão gratuita, é provável que comeces a ver conteúdo promocional nas tuas conversas. Se pagas o Plus ou superior, para já nada muda.
Como funcionam os anúncios
Segundo a OpenAI, os anúncios são apresentados separados das respostas do ChatGPT e não influenciam aquilo que o modelo responde. A empresa afirma também que mantém as conversas privadas dos anunciantes, que não vende os dados dos clientes e que os anúncios estão sempre claramente identificados.
Há ainda um ponto importante para a Europa: a segmentação personalizada depende de consentimento explícito do utilizador, para cumprir o RGPD. A OpenAI publicou inclusivamente uma nova política de privacidade europeia a meio de agosto, precisamente a pensar nesta entrada.
Porque é que isto está a acontecer agora
A publicidade é uma mudança de rumo assumida. Em 2024, Sam Altman chegou a descrever os anúncios no ChatGPT como um “último recurso”, receando que pudessem minar a confiança dos utilizadores. Mas o custo de operar a plataforma é enorme, e a OpenAI começou a testar anúncios nos Estados Unidos em fevereiro, seguindo-se o Reino Unido em junho. A Europa é agora o maior mercado a entrar.
Nem tudo tem sido pacífico. Ainda em janeiro, o senador norte-americano Ed Markey alertou para o risco de a publicidade em chatbots explorar a ligação emocional que os utilizadores criam com estas ferramentas, questionando como seriam evitados anúncios em conversas sensíveis sobre saúde ou política. Na Europa, juntam-se dúvidas sobre como o RGPD, o Regulamento da IA e o DSA se vão aplicar a este novo formato.

O acesso limitado e o papel das agências
Nesta primeira fase, as marcas não conseguem simplesmente criar uma campanha sozinhas: o acesso faz-se através da equipa de anúncios da OpenAI, de parceiros tecnológicos e de agências parceiras, entre as quais grandes grupos internacionais. A ferramenta de autosserviço (o Ads Manager) só deverá abrir mais tarde.
É aqui que entra o ângulo português. A Cosmo5 (a agência que até 2025 se chamava Grupo Labelium) é um dos parceiros oficiais da OpenAI nesta fase e diz estar já a trabalhar nas primeiras ativações europeias com clientes como a Orange, a Santalucía e a Fotocasa, preparando também uma primeira campanha para um cliente nacional. Para Carlos Oliveira, Managing Director da Cosmo5 Portugal, a grande vantagem desta fase inicial é o tempo de aprendizagem num canal ainda muito novo.
O que muda para ti
Na prática, se és utilizador gratuito, o ChatGPT vai deixar de ser um espaço sem publicidade e convém prestar atenção a duas coisas: verificar o teu plano (para saberes se vais ou não ver anúncios) e rever as definições de privacidade, já que a personalização depende do consentimento que deres.
O ChatGPT está, no fundo, a seguir o caminho de quase todas as grandes plataformas antes dele: começa gratuito e sem anúncios para crescer e, quando a base de utilizadores é enorme, a publicidade entra em cena. A diferença é que, desta vez, o “sítio” onde os anúncios aparecem é uma conversa e isso levanta perguntas novas que só o tempo (e os reguladores) vão responder.







