Eu vejo! Mas, é inegável que existe um estigma parvo na nossa sociedade que teima em associar tudo o que é animação a coisas de criança. Já muitas vezes me encontrei a ver Anime, Rick and Morty, Simpsons, Family Guy, ou similar, até em aviões, e alguém teve de mandar uma “boquinha” como se fosse algo extremamente contra-natura.
De facto, se tens mais de 20, 30 ou 40 anos e admites numa conversa de café que gostas de ver desenhos animados, há sempre quem olhe de lado como se tivesses parado no tempo ou tivesses um problema de maturidade.
No entanto, é uma coisa que não faz qualquer sentido. Há muita animação feita para adultos. Aliás, há coisas que só são possíveis de fazer a partir de animação. É mais fácil contar histórias fora do normal dessa forma.
Além disso, a verdade é que a indústria da animação mudou radicalmente nas últimas décadas. Se nos anos 80 e 90 o foco era quase exclusivo para o público infantil, hoje em dia as maiores produções são pensadas de raiz por e para adultos.
Dos Simpsons ao Dragon Ball: O poder da nostalgia e do humor sem filtros

Portanto, a realidade é que a nostalgia desempenha um papel gigantesco nesta ligação. Rever clássicos como Dragon Ball, Shin Chan ou Doraemon, muitas vezes com as dobragens míticas em português com que crescemos, é uma forma rápida e eficaz de recuperar boas memórias. Mas não se fica por aí. Séries como Os Simpsons, Family Guy, Futurama, South Park ou Rick and Morty usam o desenho animado como um veículo para fazer crítica social e política com uma liberdade que nenhuma série com atores reais consegue alcançar.
Para além do humor ocidental, a explosão do anime e de plataformas de streaming como a Netflix ou a Crunchyroll trouxe para o grande público histórias densas, violentas e complexas (como Cyberpunk: Edgerunners ou Attack on Titan) que passam a quilómetros de distância do que se pode considerar um “programa para crianças”.
Aliás, muitos adultos não iriam conseguir ver alguns animes, tão chocantes que são.
Consumir entretenimento sem complexos. És adulto! O que os outros acham… Interessa?
Já me aconteceu, até em trabalho, levar com algumas boquinhas.

Ou seja, em uma press trip de carros, onde temos jornalistas mais velhos e mais “tradicionais”, decidi que queria ver um filme de Dragon Ball no tablet. Muitos foram aqueles que mandaram “bocas”, e comentaram com colegas.
Mas, no fim do dia, eu vejo o que eu quiser. Tenho 34 anos. Qual é o interesse se alguém critica, conta ao colega do lado, etc… É o que eu quero ver, e não tenho de ter vergonha de o fazer. Nem eu, nem tu.
A verdade é, no final do dia, a forma como uma história é contada, seja através de atores de carne e osso num cenário real ou através de desenhos num ecrã, é apenas um detalhe técnico. Julgar o valor de alguém ou a maturidade de um adulto pelo tipo de entretenimento que consome no seu tempo livre é de uma pequenez gritante.
Seja para rir com um episódio de dez minutos antes de ir dormir ou para acompanhar uma saga épica de animação, não há razão nenhuma para ter vergonha. A vida adulta já é suficientemente pesada sem termos de meter travões àquilo que nos faz sentir bem.







