A Qualcomm quer enfiar Inteligência Artificial nos teus ouvidos! – Parece que não há um único milímetro de tecnologia no planeta que escape à febre do momento.
Ou seja, depois de nos tentarem impingir que os computadores precisam de teclas mágicas para resumir textos e que os smartphones têm de inventar desenhos no ecrã, a Qualcomm decidiu que o próximo alvo a abater são… os nossos ouvidos.
Agora até os auriculares vão ter de pensar sozinhos?

Portanto, durante a sua conferência anual em Maui, a fabricante norte-americana tirou da cartola o Snapdragon Sound Elite Gen 2, uma nova plataforma desenhada especificamente para auscultadores, auriculares, óculos inteligentes e até modelos bizarros com câmaras embutidas.
E qual é o grande argumento de vendas? Pois claro! A Inteligência Artificial a rodar diretamente na tua orelha!
A marca dobrou o poder de processamento neural do chip, meteu-lhe ligação Wi-Fi 6E direta à nuvem sem precisar do telemóvel para nada, cortou no tamanho e reduziu os consumos. Tudo muito bonito no papel de engenharia, mas convém perguntar o que ninguém pergunta… Queremos mesmo auriculares a tentar ter conversas existenciais connosco, ou só queremos ouvir música como deve ser sem ter de carregar a bateria duas vezes por dia?
A Qualcomm jura a pés juntos que 70% dos consumidores andam desesperados por mais funções de IA nos seus acessórios. Mas… Eu não acredito muito nisso.
O cérebro na orelha: Wi-Fi direto e processamento próprio!

Para sermos inteiramente justos, a equipa técnica da Qualcomm fez um trabalho de miniaturização notável. O novo silício é 30% mais pequeno e consegue gastar até menos 40% de energia face à geração anterior, o que deixa mais espaço livre dentro das conchas para colocar baterias maiores ou drivers de som com mais corpo.
Mas a verdadeira revolução (ou loucura) está na forma como o aparelho comunica:
- Adeus ao intermediário do telemóvel: O chip integra uma unidade NPU dedicada (o chamado processador neural eNPU) e uma ligação Wi-Fi 6E de baixo consumo. Isto significa que os auriculares podem ligar-se diretamente aos servidores na internet para tarefas como tradução em tempo real, transcrição de voz ou comandos complexos, sem terem de passar pelo processador do teu smartphone.
- Cancelamento de ruído e chamadas mais limpas: Nem tudo é marketing. O poder computacional acrescido é aproveitado para afinar a quinta geração do cancelamento ativo de ruído adaptativo (ANC) e a tecnologia de captação de voz em locais barulhentos, o que dá sempre jeito quando tentas atender uma chamada na rua com vento forte.
- Áudio sem compressão: A base que realmente interessa aos amantes de música mantém-se lá: suporte ao codec aptX Lossless para streaming com qualidade de estúdio e a tecnologia XPAN para esticar o alcance sem falhas nem cortes no sinal.
Câmaras nos auriculares e óculos com olhos: A privacidade já não é uma “cena”?
Onde a conversa começa a ficar ligeiramente assustadora é quando a marca abre o jogo sobre os formatos compatíveis. A plataforma não foi desenhada apenas para os típicos auriculares de enfiar no ouvido. Foi pensada de raiz para equipar óculos de áudio e auriculares com câmaras de vídeo apontadas para a frente.
A ideia não é tirar fotografias de férias para o Instagram, mas sim permitir que a Inteligência Artificial “veja” exatamente o mesmo que tu estás a ver para te dar contexto visual ao longo do dia.
A marca de áudio Cleer já andou pelo evento a exibir um protótipo funcional com este conceito. Resta saber quem é que, no seu perfeito juízo, vai querer andar na via pública com aparelhos nas orelhas a filmar discretamente tudo e todos ao redor sem levantar um coro de protestos sobre privacidade e segurança de dados.
A indústria quer mudar a nossa relação com o som
Marcas de peso como a Bose, a HP e a referida Cleer já confirmaram oficialmente que estão a desenvolver produtos de áudio comercial baseados nesta plataforma da Qualcomm para os próximos tempos. O objetivo é muito claro. Querem transformar o auricular de um simples reprodutor de música num assistente de presença constante com quem falas em vez de olhares para um ecrã.
A visão pode ser fascinante para quem vive em Silicon Valley e sonha com futuros de ficção científica. Mas para quem gasta o seu dinheiro nas lojas, o foco continua no essencial… Queremos graves limpos, agudos equilibrados, encaixes confortáveis que não magoem ao fim de duas horas e a garantia de que os auriculares não nos deixam a falar sozinhos a meio da semana.
Além disso, também queremos preços decentes.
Se este novo chip da Qualcomm trouxer baterias mais duradouras e cancelamento de ruído impecável, seja muito bem-vindo. Se servir apenas para enfiar assistentes virtuais faladores no nosso ouvido e inflacionar o preço de tabela para lá dos 300 euros, não vai correr bem.
Antes de mais nada, o que pensas sobre isto? Faz-te sentido ter auriculares com Wi-Fi e inteligência artificial para falar sem usar o telemóvel? Ou a tecnologia está a inventar necessidades onde só precisávamos de boa qualidade de som?






