A estratégia da Qualcomm para o futuro dos seus chips topo de gama pode acabar por criar um problema interno sério para a Samsung. Um daqueles conflitos clássicos entre divisões que, visto de fora, até parece irónico.
Ou seja, segundo vários relatos da indústria, a Qualcomm está em conversações para produzir o Snapdragon 8 Elite Gen 5 no processo de 2 nm GAA da Samsung. Uma tentantiva de fugir à TSMC, para conseguir rentabilizar mais a produção de chips, que anda demasiado cara no mundo mobile.
No fundo, à primeira vista, isto soa a vitória para todos. A Qualcomm reduz dependência da TSMC, a Samsung arranja um cliente de peso para a sua fundição, e o mercado ganha mais concorrência ao nível de fabrico.
Mas há um detalhe importante. A Samsung não é só uma foundry. Também faz chips. E esses chips chamam-se Exynos.
A jogada da Qualcomm faz sentido. Para ela.

Não é só a memória que anda a criar problemas. Os custos dos SoC topo de gama estão a disparar. O Snapdragon 8 Elite Gen 5 já é apontado para valores perto dos 280 dólares por unidade. A próxima geração pode facilmente passar a fasquia dos 300 dólares.
Com a TSMC a dominar o fabrico avançado e a cobrar caro por isso, a Qualcomm quer uma alternativa real. Diversificação, poder negocial e margem de manobra. Claro que tudo isto aponta para a Samsung Foundry.
Além disso, há um objetivo estratégico claro. Se a Qualcomm produzir chips em fábricas da Samsung, ganha mais força para exigir que esses chips sejam usados em mais modelos Galaxy S. Mas… aqui começa o problema.
Mais Snapdragon significa menos Exynos
Se a Samsung aceitar produzir Snapdragon em grande escala, é muito provável que a Qualcomm imponha contrapartidas. Uma delas pode ser simples. Mais Galaxy S com Snapdragon. Menos Galaxy S com Exynos.
Do ponto de vista da Qualcomm, faz todo o sentido. Do ponto de vista da Samsung, nem por isso.
Sim, a divisão de semicondutores ganha encomendas. Mas, a divisão mobile passa a pagar mais por cada smartphone vendido, porque Snapdragon custa mais do que Exynos. No papel, a empresa ganha de um lado e perde do outro.
Na prática, quem sofre é o negócio dos smartphones.
Um conflito interno difícil de gerir?
A Samsung tem histórico de acordos pouco equilibrados com a Qualcomm. Há relatos de cláusulas pesadas e penalizações se certos modelos não forem lançados exclusivamente com Snapdragon em determinados mercados.
Se isto se repetir, a Samsung pode acabar numa situação caricata. Produz chips Snapdragon nas suas fábricas, mas enfraquece a sua própria plataforma Exynos, que fica cada vez mais difícil de justificar em flagships.
Isto numa altura em que a Samsung quer dar a volta dentro deste campo. Os Exynos precisam de ganhar força e popularidade.
O problema dos rendimentos em 2 nm
Há ainda um obstáculo técnico importante. Os rendimentos do processo 2 nm GAA da Samsung andam perto dos 50%. Para convencer a Qualcomm a avançar a sério, esse número terá de subir para pelo menos 70%.
Sem isso, o risco é demasiado grande para um chip flagship que vai parar a milhões de smartphones.
Mesmo com contratos recentes de peso, como acordos com a Tesla e empresas chinesas, a Qualcomm seria o cliente mais simbólico. Mas claro, também o mais exigente.
No fim, quem perde mais?
Se esta parceria avançar, a Samsung ganha volume e prestígio na foundry. Mas pode perder relevância estratégica no Exynos e margem no negócio mobile.
Em suma, é uma balança que tem de pender obrigatoriamente para um lado. Resta saber qual.

