Se esta segunda-feira deste por ti a olhar para o router a piscar a vermelho, internet instável, a reiniciar a box da TV ou a tentar desesperadamente abrir uma página de internet… Não estiveste sozinho. Não foi geral, mas o país queixou-se em peso.
Durante a tarde de ontem, a MEO veio a público com um comunicado oficial a sacudir a água do capote, garantindo que foi vítima de um “ataque em massa” que congestionou a sua rede internacional. Assegurando logo a seguir que não houve qualquer fuga de dados de clientes.
Só que, quando começamos a esgravatar nos dados técnicos que circulam nos bastidores e na telemetria de quem realmente percebe da coisa, a história do “ataque” começa a parecer estranha.
O BGP não mente: O que dizem os registos de tráfego?

Para quem não sabe, o BGP (Border Gateway Protocol) é, trocando por miúdos, a lista de itinerários e autoestradas que ensina os pacotes de dados da internet a encontrar o caminho de um ponto para o outro no planeta.
Assim, se alguém introduzir direções erradas no sistema, o tráfego perde-se no caminho e a internet cai pura e simplesmente.
E o que é que mostram os dados técnicos partilhados pela comunidade de redes e por plataformas como a IPinfo? Mostram anomalias brutais de encaminhamento que apontam muito mais para uma perturbação interna ou um “route leak” absurdo do que propriamente para um ataque coordenado vindo de fora.
- Explosão de eventos BGP: Num único prefixo da rede MEO (2.80.0.0/14) foram registados mais de 3.650 eventos BGP, num volume colossal comparado com os meros 17 eventos normais na mesma janela da noite anterior. Nas gamas afetas à rede móvel e internacional, as oscilações ultrapassaram os 6.400 eventos anormais, com o pico mais agressivo a dar-se perto da 01:15.
- O bizarro caso do Gana: Vários especialistas apontam que a Ghana Telecom andou a fazer leak de rotas para a MEO durante dias seguidos. Prefixos de entidades ganenses foram parar aos encaminhamentos da operadora portuguesa através de saltos manhosos com a Vodafone e a Angola Cables. Cinco fugas registadas em nove dias!
- Zero provas de ataque externo: A própria telemetria analisada não confirma, de forma alguma, a existência de um ataque DDoS clássico ou de falhas em infraestruturas globais como a Cloudflare. O cenário é totalmente compatível com falhas graves de filtragem e configuração de encaminhamento na própria rede da operadora.
“Fomos atacados!”
Se fores à oficina porque o teu carro avariou, é muito mais bonito o mecânico dizer-te que foste sabotado por um agente secreto do que admitir que se esqueceu de apertar um parafuso do filtro de óleo na última revisão. No mundo das telecomunicações passa-se exatamente o mesmo.
Dizer que foram alvo de um “ataque informático em massa” fica sempre bem nos comunicados para a comunicação social generalista. Desresponsabiliza a empresa perante os clientes, alimenta a ideia de força maior e esconde eventuais falhas de gestão de rotas que deveriam ter sido filtradas. Isto antes de mandarem a ligação de meio Portugal abaixo.
Ainda bem que não houve dados comprometidos! Isso seria o pior dos cenários. Mas a MEO tem de começar a tratar os seus clientes como utilizadores informados.






