Se andas a acompanhar as notícias, certamente já viste as imagens de rios a transbordar e alertas de cheias em várias regiões. Ao olhares para os mapas que mostram as barragens a 80% ou 90% da sua capacidade, é natural que penses que a tua fatura de eletricidade devia cair a pique. Afinal, a lógica parece simples: se existe mais água, há mais produção hidroelétrica, o que deveria significar menos dependência do gás natural e custos mais baixos. Contudo, o sistema elétrico não funciona de forma tão linear como um mito popular. Ele assemelha-se mais a um sistema nervoso complexo, regido por limites físicos e regras de mercado rigorosas. Portanto, vamos desmontar este cenário com a explicação pela qual as barragens cheias não baixam a conta da luz.
Chuva a potes e barragens cheias não baixam a conta da luz
Antes de mais, deves compreender que uma barragem cheia indica apenas que existe água armazenada. Para que essa água se transforme em eletricidade, ela precisa de passar obrigatoriamente pelas turbinas. No entanto, em episódios de chuva extrema, muita dessa água acaba por ser libertada sem nunca gerar um único Watt.
Existem dois destinos possíveis para a água que sai de uma albufeira:
Libertação pela turbina: Onde o movimento gera efetivamente energia elétrica.
Descarga de superfície: Realizada através de vertedouros ou descarregadores para garantir a segurança, onde a água sai sem produzir nada.
Desta forma, quando as chuvas são demasiado intensas, o objetivo principal dos operadores muda drasticamente. A prioridade deixa de ser a produção e passa a ser a gestão de segurança de cheias.
A segurança das populações está acima do lucro energético
Sempre que a previsão meteorológica aponta para mais chuva nos dias seguintes, o operador da barragem precisa de criar uma margem de manobra. Por consequência, ele é obrigado a libertar água para manter um espaço vazio na albufeira que consiga amortecer os novos picos de caudal.
Além disso, deves considerar que as turbinas têm limites físicos de engenharia. Elas não conseguem processar volumes infinitos de água ao mesmo tempo. Se a entrada de água for superior à capacidade máxima da turbina, o excedente tem de sair pelos descarregadores de emergência. Como resultado, podes ver uma barragem a despejar água com força total enquanto a produção elétrica está estagnada ou até limitada.
Guardar água hoje para evitar a seca amanhã
Outro fator crucial em Portugal é a gestão estratégica de longo prazo. Como o nosso clima é marcado por verões secos, as entidades gestoras tentam manter as reservas o mais altas possível.
Neste sentido, a água numa barragem funciona exatamente como uma bateria gigante. Embora a bateria esteja carregada, não faz sentido gastá-la toda num momento em que a eletricidade já está barata devido ao vento forte. Frequentemente, opta-se por guardar essa energia líquida para os meses de calor, quando a produção solar e eólica pode não ser suficiente para cobrir os picos de consumo.
O mercado ibérico e o papel do gás natural
Mesmo com as nossas barragens no limite, o preço que pagas é definido num mercado ibérico (OMIE). Portanto, o valor final depende de uma combinação de fatores que ultrapassa as nossas fronteiras:
| Fator de Influência | Impacto no Preço |
| Vento e Sol | Baixam o preço quando estão em abundância. |
| Interligações | A exportação para Espanha pode equilibrar ou subir valores. |
| Gás Natural | Funciona como o “bombeiro” do sistema, entrando sempre que as renováveis falham. |
Infelizmente, o gás continua a ser necessário para garantir a estabilidade da rede. Como as centrais a gás conseguem ligar e desligar muito depressa, elas asseguram que não existem apagões quando a produção hídrica ou eólica oscila. Desta maneira, o custo do gás acaba por ditar o preço de mercado em muitas horas do dia, independentemente de quanta água corre nos rios.
O que isto significa para ti
Ou seja, não deves esperar uma queda milagrosa na fatura só porque está a chover a potes. A descida consistente dos preços só acontece quando existe um alinhamento perfeito entre produção hídrica, eólica forte e uma procura moderada no mercado ibérico.
Posto isto, da próxima vez que ouvires alguém dizer que a luz devia ser grátis porque as barragens estão a verter, já tens os argumentos para explicar a realidade. A água pode estar a sair, mas pode estar a sair pelo sítio errado e à hora errada para afetar a tua carteira.








