TV por subscrição está a morrer. IPTV pirata não é um detalhe

Os números que chegam do Brasil podiam ser facilmente confundidos com um retrato antecipado do que também está a acontecer em Portugal. Em 2025, a TV por subscrição perdeu 1.6 milhão de clientes no mercado brasileiro e caiu para o nível mais baixo desde 2009. Um colapso silencioso, mas com um impacto potencialmente brutal.

Agora troca Brasil por Portugal, ajusta a escala, e o filme é assustadoramente parecido.

A TV por subscrição começa a não encaixar na realidade atual

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A realidade é simples… O modelo clássico da TV por subscrição está cansado. Pacotes caros, contratos longos, canais que ninguém vê, grelhas rígidas e pouca flexibilidade. Durante anos funcionou porque não havia alternativa real. Hoje há demasiadas, muitas delas mais acessíveis, e até mais simples.

Em Portugal, MEO, NOS e Vodafone continuam a vender televisão como se estivéssemos em 2012, mas o consumidor já vive em 2026. Quer escolher o que vê, quando vê e em que ecrã. E claro, acima de tudo, quer pagar menos.

O resultado é óbvio. Cada vez menos casas com box ligada. Cada vez mais pessoas a reduzir pacotes ou a cortar o cabo de vez.

A DIGI também teve um certo impacto quando chegou ao nosso mercado. Ao oferecer apenas Internet, em vez de pacotes que muitas vezes as pessoas não querem. Isso alavancou a subcrição a pacotes de IPTV gratuitos, ou claro, piratas.

Streaming lidera… mas não é a única coisa a detalhar.

Tal como no Brasil, o streaming é o principal responsável pela queda. YouTube, Netflix, Prime Video, Disney+, Max, Apple TV+. Tudo disponível, tudo on demand, tudo sem fidelizações absurdas.

Mas em Portugal há um fator extra que raramente é assumido de frente.

A IPTV pirata.

Pirataria, pirata

A IPTV pirata não explica tudo, mas explica muito

Sempre que se fala no colapso da TV por subscrição, as operadoras apontam o dedo à pirataria. E não estão totalmente erradas. A IPTV pirata é hoje uma realidade massiva em Portugal, apesar de convenientemente ignorada nos relatórios oficiais.

É barata, simples, funciona em qualquer Android TV, box ou smartphone, e oferece tudo num só sítio. Canais nacionais, desporto premium, filmes, séries, streamings internacionais. Tudo.

O problema é que este crescimento não aconteceu no vazio. A IPTV pirata cresce porque o modelo legal falhou em acompanhar o mercado.

Quando uma família paga mais de 70€ por mês por TV e internet, e depois ainda tem de somar Netflix, Disney+ ou Prime Video, a tentação aparece. E aparece depressa.

A reação das autoridades é um sintoma, não uma solução

Nos últimos meses vimos mais bloqueios, mais operações policiais, mais cartas a consumidores, mais campanhas de medo. Isso não acontece por acaso. É sinal de desespero.

Mas atacar o utilizador final não resolve o problema estrutural. Pode assustar alguns, sim. Mas não devolve valor ao produto legal. As coisas têm de mudar, para as pessoas fugirem dos piratas. Caso contrário, nada muda. Os esquemas mudam, mas continuam a existir.

Ou seja, enquanto a TV por subscrição continuar cara, rígida e desajustada, haverá sempre alguém disposto a procurar alternativas. Legais ou não.

O horário nobre morreu. O comando também

Tal como os dados brasileiros mostram, o conceito de horário nobre deixou de fazer sentido. Hoje cada pessoa cria o seu próprio horário. Vê no telemóvel, no tablet, no portátil, na TV, quando lhe apetece.

A box deixou de ser o centro da sala. É só mais um aparelho ligado a um ecossistema que já não controla.

Em Portugal, isto nota-se especialmente nos mais novos. Para muita gente abaixo dos 30 anos, a TV tradicional é irrelevante. Nem sequer faz parte da decisão de compra de um serviço de internet.

Conclusão

A TV por subscrição não está a morrer por causa da IPTV pirata. Está a morrer porque deixou de fazer sentido para muita gente.

A IPTV pirata é apenas o reflexo mais cru dessa falha.

Enquanto o setor não repensar preços, pacotes, flexibilidade e integração real com streaming, o caminho é este. Menos clientes, menos relevância, mais repressão, e menos futuro.

No fim do dia, isto não é um problema do Brasil. Portugal está exatamente na mesma estrada. Apenas alguns quilómetros atrás.

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Nuno Miguel Oliveira
Nuno Miguel Oliveirahttps://www.facebook.com/theGeekDomz/
Desde muito novo que me interessei por computadores e tecnologia no geral, fui sempre aquele membro da família que servia como técnico ou reparador de tudo e alguma coisa (de borla). Agora tenho acesso a tudo o que é novo e incrível neste mundo 'tech'. Valeu a pena!

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