A febre das impressoras 3D tornou-se aquela típica história moderna: começa como hobby de fim de semana… e de repente já estás a pensar espera lá, se eu fizer uns bonecos fixes e vender? Isto paga a própria impressora. O problema é que há um ponto onde a coisa gira para vender se transforma, sem aviso, numa dor de cabeça legal. E, na maioria dos casos, nem é por maldade: é por desconhecimento. A regra base é simples: tu podes vender impressões 3D, mas não podes vender direitos que não são teus. Isso inclui personagens famosas, designs de outras pessoas e ficheiros com licenças que proíbem uso comercial Vamos ao que interessa: como vender impressões 3D e não ter problemas.
Vender impressões 3D? Onde é que as pessoas entram em problemas
1) Personagens e marcas conhecidas: Pikachu, Mickey, Marvel, etc.
Se estás a imprimir e vender algo que usa a imagem/forma reconhecível de uma personagem protegida, estás a entrar em terreno de direito de autor (e muitas vezes também marca registada).
Em Portugal, o princípio é o mesmo do resto da UE: reproduzir uma obra de outra pessoa, para lucrar, normalmente exige autorização do titular. Isto está alinhado com o regime do Código do Direito de Autor e com a harmonização europeia destes direitos (direito de reprodução, distribuição, etc.).
Tradução prática:
“Mas eu fiz em 3D, não copiei uma imagem!” continua a ser reprodução/derivação de algo protegido.
“Mas é fan art!”: fan art pode existir; vender fan art é que costuma dar chatices.

2) Vender prints feitos a partir de ficheiros STL de terceiros
Aqui a armadilha é ainda mais comum: sacas um ficheiro gratuito, imprimes, pintas, tiras fotos bonitas… e vendes.
Só que gratuito não significa podes vender.
Muitos designers publicam ficheiros sob Creative Commons, e a licença é que manda. A Creative Commons explica isto de forma direta: se tiver NC (NonCommercial), não podes usar para fins comerciais. E atenção: ter um selo “CC” não quer dizer que dá para vender. Tens de ver qual CC é.
O guia rápido das licenças Creative Commons para 3D
CC BY: podes usar comercialmente, tens é de atribuir crédito.
Ou CC BY-SA: podes usar comercialmente, mas se alterares e partilhares, tens de manter a mesma licença (“share alike”).
Já o CC BY-ND: podes vender, mas não podes modificar (no derivatives).
Qualquer coisa com “NC” (BY-NC, BY-NC-SA, BY-NC-ND) não podes vender.
Isto é o essencial. O resto são detalhes de atribuição, partilha e derivados.
Então… como é que se vende 3D legalmente?
Opção A (a mais “limpa”): vende designs teus
Hoje em dia tens software acessível para isto: FreeCAD, Tinkercad, Blender, Fusion (para quem já tem mão). Vais demorar um bocado a ganhar ritmo? Vais. Mas ficas com mum produto realmente teu, margem para escalar, e zero medo de levar takedown ou reclamação.
Opção B: trabalha com um designer (ou paga por um design)
Se tens ideias mas não queres aprender modelação (normal), faz parceria com alguém ou paga um freelancer. O ponto crítico aqui é: contrato/termos por escrito a dizer que tens direito a usar e vender aquele design. Sem isso, podes pagar e mesmo assim ficar sem direitos claros.
Opção C: usa ficheiros com licença que permita uso comercial (e cumpre as condições)
Dá para fazer isto de forma tranquila: escolhes ficheiros com licença que permita uso comercial, guardas prova da licença (print/PDF/URL) no dia em que sacaste, cumpres a atribuição, se for exigida (BY), não alteras se for ND, se for SA, respeitas o “share alike” quando aplicável.

Dá para ganhar dinheiro com impressão 3D mas com regras
Vender 3D prints é totalmente legítimo… desde que o que estás a vender seja teu (ou legalmente licenciado para vender). No entanto o problema não é a falta de mercado, é a falta de atenção aos direitos.
E o mais irónico? Quem faz isto bem, com designs próprios e licenças em ordem, acaba por construir algo muito mais valioso do que mais um boneco do Pikachu.

