Porque é que os carros são tão caros em Portugal?

Não é só ganância, mas também não ajuda nada à situação. Há uma pergunta que aparece vezes sem conta, sobretudo de quem vem de fora e decidiu desde logo fugir do mercado dos carros novos, e por isso começa a olhar para o Standvirtual com olhos de quem está habituado ao mercado alemão ou francês.

Um carro novo é mais caro em Portugal. Isto não é novidade. Mas… Porque é que um carro usado em Portugal custa mais, tem mais quilómetros e ainda assim é anunciado como se fosse um achado?

Se há coisa que Portugal faz como poucos é transformar carros em artigos de luxo, mesmo quando alguns deles já deviam estar a pedir por um qualquer apoio ao abate.

O primeiro culpado, claro, chama-se impostos

Em Portugal, carros não são só carros. São uma mina de ouro para o estado. É por isso que, apesar de Portugal ser um país pobre, com ordenados muito abaixo daquilo que uma Alemanha é capaz de oferecer, conta com veículos muito mais caros face à vizinhança da zona Euro.

No fundo, o ISV não é ambiental. É fiscal.

Sim, o ISV é vendido como um imposto ambiental. A ideia, no papel, até parece bonita. Penalizar carros mais poluentes, incentivar motores mais eficientes e empurrar o mercado para soluções “verdes”.

O problema é que, na prática, o ISV não mede eficiência real, mede números fáceis de taxar.

Mais concretamente, a cilindrada e CO2 em homologação.

Isto significa que um motor maior, moderno, mais eficiente e até menos poluente em uso real, pode pagar mais imposto do que um motor mais pequeno, mais antigo e menos eficiente, só porque tem mais centímetros cúbicos.

É uma lógica completamente desligada da realidade técnica.

Infelizmente, o mercado adapta-se ao imposto, e não à realidade do ambiente.

Motores piores sobrevivem porque pagam menos imposto

Em Portugal, compensa vender motores pequenos, muitas vezes sobrecarregados, com turbos a trabalhar no limite, porque pagam menos ISV à cabeça. Mesmo que depois consumam mais, poluam mais em uso real e tenham uma longevidade pior.

Motores maiores, mais suaves, mais eficientes em estrada e com emissões reais mais estáveis são castigados logo à nascença.

Não é assim coincidência que:

  • certos motores desapareçam do mercado nacional
  • versões interessantes nunca cheguem a Portugal
  • outras existam apenas em números residuais

ISV em cima do preço… e IVA em cima do ISV

Depois há o detalhe que continua a ser ignorado durante anos. O ISV entra na base de cálculo do IVA. Ou seja, pagas imposto sobre o carro, e depois pagas imposto sobre o imposto.

Mas nada muda. Porquê?

Porque o sistema rende. E rende muito.

As multas europeias são tratadas como custo operacional. Um detalhe contabilístico. Enquanto a receita continuar a entrar, não há qualquer incentivo real para reformar o modelo.

O ISV também destrói o mercado de usados “bons”

O efeito não se sente só nos carros novos.

Quando um carro novo entra caro no mercado, o usado nunca desce para valores normais. Fica artificialmente inflacionado, porque o preço de referência inicial já era absurdo.

E claro, quando importas um usado, voltas a bater no ISV. Com desconto por idade, sim. Mas continuas a pagar um imposto ambiental sobre um carro que já pagou esse imposto noutro país.

Por exemplo, a versão híbrida do novo Renault Clio chega aos quase 30 mil euros em Portugal. O que vai acontecer? Não vai vender. São valores absurdos para a nossa realidade.

Aliás, é exatamente por isso que a versão com motor 2.0 do Mazda MX-5 não existe por cá. E é também por isso que a motorização 1.8 da Renault em Portugal não vende nada de especial. Fazemos contas a olhar para o dinheiro, e não para o impacto ambiental real de cada motorização.

Mercado pequeno, pouca oferta, preços parvos

O mercado português é pequeno e os salários são baixos. Para teres noção, são vendidos cerca de 200 mil carros novos por ano no nosso mercado. E dentro do mundo dos novos, quase mais de 80% é para empresas.

É precisamente por isso que os carros interessantes são raros.

A maioria das pessoas compra carros mais básicos, mais pequenos, mais diesel (hoje em dia mais GPL), mais tudo aquilo que “faz sentido” para sobreviver. Isso significa que quando aparece um RS3, um RS5, um GTI a sério, ou qualquer coisa com performance a sério, há pouca oferta.

E quando há pouca oferta, o vendedor faz aquela coisa muito portuguesa. Pede o que lhe apetece e logo se vê.

Importar ajuda, mas não é a festa que parece

Muita gente acha que a solução é simples. Vais à Alemanha, compras mais barato, trazes para cá e ficas a rir.

Aliás, é cada vez mais comum encontrar Portugueses a importar carros. Mas, da mesma forma que há carros usados completamente destruídos à venda nos stands locais. Importar tudo o que se vê também não é grande ideia. Andamos a importar carros antigos, que ninguém sabe muito bem o seu estado real.

Depois, na prática, vais sempre pagar ISV na legalização com matrícula portuguesa, mesmo que o carro já tenha pago impostos noutro país. Há reduções por idade, mas continua a doer, sobretudo em carros potentes e com emissões altas.

Depois tens burocracia, inspeções, papelada, tempo e a paciência necessária para lidar com tudo isto. Há muita gente que prefere pagar mais uns milhares e comprar “já legalizado” em Portugal.

Então porque é que continuam a pedir tanto?

Porque há quem pague.

É a parte mais chata desta conversa, mas é a verdade. Enquanto houver alguém a comprar um carro com 150.000 km a preço de sonho, o próximo vendedor vai tentar o mesmo. E o mercado inteiro ajusta-se a essa loucura.

Portugal é um país onde o automóvel é caro por natureza, caro por impostos, caro por falta de oferta e caro porque culturalmente muita gente trata o carro como investimento.

E sim, no meio disto tudo, também há vendedores completamente convencidos de que a sua lata velha é um futuro clássico. Infelizmente é o que temos. Enquanto o governo não quiser fazer reformas, que por sua vez podem estimular a economia com mais procura… Nada vai mudar.

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Nuno Miguel Oliveira
Nuno Miguel Oliveirahttps://www.facebook.com/theGeekDomz/
Desde muito novo que me interessei por computadores e tecnologia no geral, fui sempre aquele membro da família que servia como técnico ou reparador de tudo e alguma coisa (de borla). Agora tenho acesso a tudo o que é novo e incrível neste mundo 'tech'. Valeu a pena!

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