Nos últimos meses, a narrativa tem sido sempre a mesma, e de facto tem sido bastante assustadora. Ou seja, falta memória no mercado porque as fabricantes estão todas focadas em IA, que dá muito mais dinheiro, e como tal, esqueceram os consumidores. Simples, direto e fácil de apontar o dedo.
O problema é que, segundo a Micron, a história não é bem assim. Dito isto, depois de ouvir quem está mesmo no centro do problema, fica claro que a escassez de DRAM é bem mais complexa do que parece.
A Micron não virou costas aos consumidores

Christopher Moore, vice-presidente de marketing da Micron para os segmentos mobile e client, foi claro. A empresa não abandonou o mercado de consumo. O que mudou foi o canal.
Muita gente associa a saída da marca Crucial ao abandono dos consumidores. Mas a realidade pode ser outra. Isto porque a Micron continua a fornecer grandes volumes de memória a fabricantes como Dell, ASUS e muitos outros, que depois integram esses módulos nos seus próprios produtos. Ou seja, a memória continua a chegar aos consumidores, apenas de forma indireta.
O problema é que, ao mesmo tempo, o mercado de data centers e inteligência artificial explodiu.
A IA mudou completamente as regras do jogo?
O crescimento do mercado de IA está a sugar DRAM a um ritmo nunca visto. Segundo a Micron, o segmento empresarial e de data centers já representa entre 50% e 60% da procura total de memória, quando há poucos anos rondava os 20~30%.
Dito isto, como qualquer empresa quer fazer dinheiro… Isto não é uma escolha da Micron. É uma realidade de mercado. O chamado TAM cresceu de forma absurda e nenhuma fabricante consegue simplesmente ignorar isso.
Porque é que novas fábricas não resolvem já o problema
Aqui está uma das partes mais importantes, e menos faladas.

Construir uma fábrica nova não acontece de um momento para o outro. Mesmo quando uma fábrica começa a ser construída hoje, o impacto real só chega anos depois. No caso da Micron, uma nova unidade nos EUA começou a ser construída há três anos e só deverá começar a produzir em meados de 2027.
Produção a sério, com volumes relevantes e certificações completas? Apenas em 2028.
A variedade de configurações está a matar a produção
Hoje, fabricantes pedem 8 GB, 12 GB, 16 GB, 24 GB. Tudo ao mesmo tempo. Cada mudança obriga a ajustes nas linhas de produção, o que reduz imediatamente o volume total produzido.
Antes da febre da IA, isso era aceitável. Agora, não.
A solução de curto prazo passa por limitar configurações, estabilizar pedidos e maximizar o rendimento das fábricas. É por isso que estás a ver cada vez menos opções de RAM em portáteis e smartphones.
E a China? Vai salvar o mercado?
Muito se tem falado de fabricantes chineses como a CXMT a preencherem o vazio deixado pelos grandes nomes ocidentais. Porém, a Micron não parece particularmente preocupada.
Aliás, até fica a ideia de que concorrência é bem-vinda. Isto porque obriga a melhorar produtos, processos e preços. Assim, desde que cumpram os requisitos técnicos e de qualidade, todos têm espaço no mercado.
A conclusão é… Estamos lixados até 2028.
A falta de memória não vai desaparecer em 2026. Nem em 2027.
Segundo a própria Micron, só em 2028 é que os investimentos atuais vão começar a ter impacto real no mercado. Até lá, vamos continuar a ver preços elevados, configurações limitadas e lançamentos condicionados.

