Isto é algo que muita gente ainda não percebeu, mas depois de várias décadas, onde “Made in China” foi sinónimo de barato, descartável e produzido em massa…. As coisas mudaram.
Sim, foi algo que serviu para encher prateleiras no Ocidente, baixar preços e alimentar margens. Mas esse rótulo está a mudar, e não é por acaso. Tal como aconteceu com o “Made in Germany”, que começou como um aviso de qualidade duvidosa e acabou como selo de excelência, a China está a fazer exatamente o mesmo percurso, só que em muito menos tempo.
Aliás, a China é hoje em dia a fábrica de mundo.
Da fábrica do mundo ao centro de inovação

Claro que a economia chinesa já não cresce como crescia há 15 ou 20 anos. O que é normal. O país deixou para trás a fase de industrialização acelerada e entrou numa fase de maturidade. Podemos dizer que o foco deixou de ser quantidade e passou a ser valor.
Sim, ainda existe uma China muito pobre. Mas agora também existe uma China muito rica. Além disso, a diferença entre uma e a outra é cada vez mais pequena.
De facto, nos dias que correm, a China quer liderar setores críticos para as próximas décadas, não apenas competir neles. Fala-se de veículos elétricos, energias renováveis, semicondutores, software, inteligência artificial e saúde. Setores onde o crescimento é estrutural e não cíclico.
Basta olhar para o mundo automóvel, onde a China cresceu de uma forma quase absurda, e até já ultrapassou o Japão como o maior exportador do mundo. O que claro está, acontece muito por culpa da sua posição dominante nos elétricos.
Também não é coincidência que produza cerca de três quartos das células de baterias de iões de lítio a nível global, controlando grande parte da cadeia de valor.
Tecnologia verde, mas também eficiência industrial

Nos elétricos, a vantagem chinesa não vem apenas do produto final. Vem de tudo o que está por trás. Cadeias de fornecimento curtas, fábricas rápidas de construir, escala brutal e apoio político consistente ao longo de mais de uma década.
Acabo de chegar do Salão de Bruxelas, e a quantidade de marcas Chinesas no mundo dos carros e motas, e de facto, a quantidade absurda de carros que não são feitos por marcas Chinesas, mas que são feitos na China, é mesmo qualque coisa.
O mesmo acontece nas energias renováveis. A China já tem mais capacidade solar instalada do que o resto do mundo combinado, e caminha para cumprir metas de 2030 cinco anos mais cedo. Isto obriga a inovação em redes elétricas, armazenamento e gestão de energia, áreas onde o país também começa a liderar.
Hardware, software e IA. O trio que muda tudo
Muito se fala dos bloqueios aos semicondutores e das tensões geopolíticas. Mas a resposta chinesa tem sido fantástica. Investir, substituir dependências externas e escalar rapidamente soluções próprias.
No hardware, o número de empresas tecnológicas chinesas avaliadas em mais de mil milhões de dólares disparou nos últimos anos. No software, marcas locais estão a ganhar quota a empresas ocidentais em áreas críticas como cibersegurança, gestão empresarial e serviços financeiros.
Na inteligência artificial, a mudança é ainda mais evidente. Em poucos anos, a China passou de seguidora a protagonista. Hoje, mais de metade dos “unicórnios” ligados à IA são chineses, e quase 40% da investigação académica mundial nesta área já vem de investigadores chineses.
Não é coincidência. É estratégia.
Saúde. De genéricos baratos a inovação global

Outro setor onde a mudança é clara é o da saúde. A China está a envelhecer, e isso força investimento. Mas o interessante é que já não se fala apenas em genéricos baratos. Fala-se em biotecnologia, patentes e acordos de licenciamento com gigantes farmacêuticos globais.
Quando empresas chinesas começam a vender inovação, e não apenas volume, o rótulo muda inevitavelmente.
O que isto significa para a Europa e para os consumidores?
Significa que continuar a olhar para produtos chineses como “segunda escolha” é um erro cada vez maior. Em muitos casos, já são tecnicamente equivalentes ou superiores, mais baratos e produzidos com uma velocidade que o Ocidente não consegue acompanhar.
Tal como aconteceu com a Alemanha, o Japão ou a Coreia do Sul, a resistência inicial vai existir. Mas o mercado não perdoa preconceitos quando a qualidade aparece acompanhada de preço competitivo.
O “Made in China” não vai desaparecer. Já está a evoluir. E hoje em dia significa qualidade.

