Se há algo que gera discussão em qualquer jantar entre amigos é o tema das gorjetas. Uns defendem que é um ato de educação, outros dizem que já estamos a pagar pelo serviço e que não faz sentido dar um cêntimo a mais. Mas afinal, quem tem razão? O que diz a lei portuguesa? O que é hábito no nosso país? E, mais importante, o que é que está correto fazer?
O que diz a lei em Portugal
Primeiro, vamos ao básico: em Portugal não existe nenhuma lei que obrigue a dar gorjetas.
A conta que recebes no restaurante, café, hotel ou táxi já inclui o IVA e, em alguns casos, até uma taxa de serviço definida pelo estabelecimento.
Ou seja: quando pagas a conta, já cumpriste a tua obrigação legal.
As gorjetas são vistas como gratificações voluntárias.
Tens duas formas de as dar:
Diretamente ao funcionário: em dinheiro. Neste caso, a gorjeta é considerada uma oferta pessoal e não passa pela contabilidade do restaurante.
Na fatura ou terminal multibanco: cada vez mais comum. Aqui a gorjeta entra no sistema contabilístico e pode até estar sujeita a impostos.
A prática em Portugal: o que se faz na vida real
Ao contrário dos EUA, onde os salários na restauração são baixos e as gorjetas representam a maior parte do rendimento dos trabalhadores, em Portugal o cenário é diferente.
Aqui, dar gorjeta não é obrigatório, mas é culturalmente apreciado.
E como é que a maioria das pessoas faz?
Cafés e pastelarias: arredondar a conta (exemplo: pagar 1 € em vez de 0,80 €).
Restaurantes comuns: deixar 1 € ou 2 € se o atendimento foi simpático.
Restaurantes mais formais: deixar 5% a 10% é visto como sinal de apreço.
Táxis ou motoristas de apps: arredondar o valor final.
Em hotéis, especialmente em zonas turísticas, também é habitual deixar uns euros para quem transporta as malas ou faz o quarto.
Afinal, o que está correto?
Não deixar gorjeta não é falta de educação. Já pagaste pelo serviço e não és obrigado a dar mais. De qualquer modo dar é um gesto valorizado. Para muitos trabalhadores da restauração e hotelaria, faz diferença no fim do mês. Entretanto, não dês por obrigação, mas pela qualidade. Se o atendimento foi mau, não tens de dar nada. Quanto ao valor justo: arredondar a conta ou oferecer 5% a 10% nos casos em que o serviço foi excelente.
E noutros países? O choque cultural
Aqui é que muitos portugueses se enganam quando viajam.
EUA e Canadá: a gorjeta é quase obrigatória. Não dar 15% a 25% pode-se ver como um insulto.
Reino Unido: muitos restaurantes já incluem 10% a 12,5% de “service charge” na conta. Mesmo assim, alguns clientes deixam extra.
Espanha e Itália: parecido com Portugal, ou seja, arredondar a conta ou deixar umas moedas.
França: a taxa de serviço já vem incluída por lei, mas ainda assim deixar umas moedas é sinal de boa educação.
Japão: curiosamente, dar gorjeta pode-se ver como ofensa, porque o bom serviço já é considerado parte do trabalho.
E quando a gorjeta vem na fatura?
Cada vez mais restaurantes em Portugal oferecem a opção de adicionar gorjeta diretamente no terminal de pagamento. Isso levanta dúvidas: será que esse valor chega mesmo ao empregado?
A verdade é que depende:
- Alguns estabelecimentos distribuem de forma justa entre os funcionários.
- Outros ficam com a maior parte ou nem chegam a repassar.
Se queres ter a certeza de que o dinheiro vai parar às mãos de quem te atendeu, o mais seguro continua a ser dar em numerário diretamente à pessoa.
A questão dos salários baixos
Embora a lei não obrigue a gorjetas, é impossível ignorar a realidade: os salários no setor da restauração e hotelaria em Portugal continuam a ser baixos.
Muitos trabalhadores vivem com o salário mínimo ou pouco acima disso. Nesses casos, a gorjeta pode representar um complemento importante ao rendimento mensal.
Por isso, para muitos clientes conscientes, deixar uma pequena quantia tornou-se quase um gesto de solidariedade. Assim não obrigatório, mas justo.
Então, o que fazer?
A resposta é simples:
- Não existe obrigação em dar gorjeta.
- Dar é um gesto opcional e simpático.
- Dá sempre em função da qualidade do serviço.
Em resumo: não existe certo ou errado absoluto. O correto é agir de acordo com o teu bom senso, sem culpa se não deixares, mas com consciência de que, se deixares, estarás a valorizar o trabalho de alguém que te serviu bem.
Da próxima vez que fores a um restaurante, lembra-te disto: a gorjeta não é uma regra, mas um gesto. E, muitas vezes, um gesto pequeno pode ter um grande impacto.















