Muito se tem falado acerca da possibilidade de circular a mais de 180 km/h em Portugal passar a ser crime com o novo Código da Estrada. Algo que até faz sentido na cabeça de muito boa gente, tal é a mortalidade nas nossas estradas. Mas, muito honestamente, e estás à vontade para não concordar comigo, não acredito que seja algo capaz de ir em frente.
180Km/h crime em Portugal? Não faz sentido nem vai acontecer

Primeiramente, não acredito de maneira nenhuma que o Estado e as forças policiais desistam desta autêntica mina de ouro e fonte de rendimento.
Afinal de contas, em Portugal, os dados oficiais da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) e os relatórios de execução orçamental mostram que o Estado arrecadou cerca de 86,9 milhões de euros em 2025 com o total de multas do Código da Estrada. Infelizmente não existe um valor oficial que isole as receitas recolhidas por tipo de infração. Mas, com a potência e capacidade de qualquer carro moderno, acredito que uma grande percentagem deste bolo venha de multas graves e muito graves, muitas delas apanhadas precisamente em veículos a ultrapassar os 180 km/h.
O que diz a lei atual?

Para percebermos o impacto de meter a fasquia no foro criminal, convém recordar como é que a tabela de sanções para veículos ligeiros em autoestrada funciona atualmente no nosso país.
- Até 30 km/h acima do limite (até 150 km/h): Infração Leve. Coima de 60€ a 300€. Sem inibição de conduzir (salvo reincidência), mas pode implicar perda de 2 pontos.
- Mais de 30 km/h até 60 km/h acima (151 km/h a 181 km/h): Infração Grave. Coima de 120€ a 600€, perda de 3 pontos na carta e inibição de conduzir de 1 mês a 1 ano.
- Mais de 60 km/h até 80 km/h acima (181 km/h a 201 km/h): Infração Muito Grave. Coima de 300€ a 1.500€, perda de 4 pontos e inibição de conduzir de 2 meses a 2 anos.
- Mais de 80 km/h acima do limite: Infração Muito Grave. Coima de 500€ a 2.500€, perda de 5 pontos e inibição de conduzir de 2 meses a 2 anos.
Dito isto… Um limite de 120 km/h ainda faz sentido? Foi pensado para a realidade de 1976.
A realidade é que o limite de velocidade de 120 km/h em autoestrada, que ainda hoje se verifica em Portugal, está completamente obsoleto. Aliás, caso não saibas, este limite foi imposto no distante ano de 1976, numa altura em que ainda circulavam carroças na terra onde vivo desde que nasci.
Apesar do facto de Portugal contar com um parque automóvel antigo, a realidade é que os carros modernos são incomparavelmente mais capazes, muito mais eficientes e, claro, infinitamente mais seguros.
Aliás, um dos grandes culpados pelo encarecimento brutal dos automóveis ao longo da última década está precisamente na obrigatoriedade e inclusão de ajudas à condução (ADAS) em todas as gamas e mais algumas. Estamos a falar da travagem autónoma de emergência, manutenção na faixa de rodagem, radares de ângulo morto e chassis desenhados para dissipar impactos com uma eficácia que em 1976 parecia ficção científica.
Muito honestamente, circular a 120 Km/h é curto para os carros de hoje em dia.
A estrada evoluiu, a fiscalização não! Falta educar em vez de apenas caçar
Isto significa que defendo que a malta ande a fazer corridas a 250 km/h no meio do trânsito? Obviamente que não. Há sítios e momentos para tudo, e a velocidade excessiva em locais críticos ou com tráfego denso é perigosa.
Aliás, se o novo Código da Estrada fizer isto fora das autoestradas. Ou seja, circular acima de uma velocidade “x” é automaticamente crime dentro e fora de localidades, sou o primeiro a dizer que não é uma má ideia.
Mas, de outra forma, não acredito que vá em frente.







